Em África, o inextricável dilema das línguas: objeto de descolonização dos imaginários e dos conceitos
O dia 16 de Junho do ano que vem, há de corresponder ao Dia da criança africana, que marcará então os cinquenta anos do início dos motins de Soweto, na África do Sul, durante o regime de apartheid. Dirigidos em 1976 por alunos negros do ensino segundário público, apoiados pelo Movimento da Consciência negra, esses protestos mobilizaram uns 20 000 alunos. O objetivo era de denunciar a introdução do afrikaans como língua oficial de ensino com igualdade nas escolas locais. Para dispersar a multidão, a polícia tirou com balas reais, provocando oficialmente 23 mortos e contribuindo à forta desgradação da imagem do regime segregacionista. No total, várias centenas de pessoas teriam sido matadas durante esses motins.
O símbolo daquele dia, o qual viu de uma juventude negra sobre a questão linguística, nos leva a reflectir sobre a problemática complexa do lugar das línguas europeias no continente africano. A maioria dos Estados africanos que acederem à independência conservaram a língua colonial como língua oficial, supostamente por facilidade em conjuntos políticos marcados por uma grande diversidade etnolinguístico e por fronteiras artificiais. Mas esta continuidade, não só questiona a relação dos novos « Estados-nações » com as línguas indígenas e o princípio de diversidade, como também ela favorece, ainda mais, o ascendente cultural das antigas potências coloniais no continente – pois em todas as sociedades, a língua, como o escreveu o escritor martiniquês Frantz Fanon, define os limites dos imaginários.
A colonização foi rapidamente duplicado por uma procura das formas de línguagem existantes no continente. Missionários realizaram traduções da Bíblia nas línguas africanas, numa empresa de alienação política e de submissão cultural. As independências geralmente não constituirem uma ruptura com a política linguística herdada da era colonial, pois os Estados recentemente criados a partir da década de 1950 adoptaram, a maioria das vezes, as línguas coloniais como línguas oficiais da administração e do ensino: o francês no Senegal e na Costa de Marfim, o inglês na Nigéria e na Tanzânia, o português em Angola e no Moçambique, ou ainda o espanhol na Guiné-Equatorial. Conta-se hoje em dia umas excepções, como a África do Sul com onze línguas oficiais (entre as quais nove línguas indígenas), o Madagáscar com o malgaxe, o Eswatini que acrescentou o swati ao inglês, o Lesoto com o soto, Comores com o comoriano, a Etiópia com o amárico, a Eritreia com o tigrigna (com o inglês e o árabe), a Somália com o somali, a República centrafricana com o sango (em paralele do francês), ou ainda Marrocos (desde 2011) e a Argélia (desde 2016) com o amazigh (que acrescenta-se ao árabe). Mas na grande maioria, os países africanos contam como línguas oficiais idiomas inicialmente estrangeiros ao continente – inclusivo o árabe, que não é reconhecido nas suas formas dialectais, e que é às vezes visto como língua colonial por certas comunidades negras ou berberes do Magrebe e do Sael.
A dimensão artificial das fronteiras herdadas da colonização explica provavelmente a facilidade com a qual os novos Estados reduziram-se a manter a língua colonial como língua veicular principal. A diversidade das comunidades etnolinguísticas reunidas sob a mesma bandeira, adicionada à formação académica dos novos dirigentes, que saiam de escolas e de universidades coloniais ou ocidentais, todos esses elementos contribuirem a não perturbar o sistema linguístico em vigor sob a administração colonial. Ainda mais porque a construção de Estados-nações sob o modela das antigas metrópoles impôs um modelo político o mais simplista possível: um Estado para uma língua e uma nação. Não podemos ver ai, simplesmente, um elemento prático e funcional. Pois é preciso lembrar que esta herança inscrivia-se numa política ativa de desvalorização das culturas e das identidades africanas. Falar fluentemente o francês, o inglês ou o português era ligado e associado à posição social sob a dominação europeia; é ainda o caso, pois o ensino sendo ainda geralmente dado numa dessas línguas, o seu domínio revela um nível de estudos potencialmente elevado.
Esta correlação entre dominação política e preeminência (em termos de representação) na área dos saberes e do conhecimento, Felwine Sarr a abordava em 2016 no seu ensaio Afrotopia com estas palavas: « O espaço africano foi desde o século XV estruturado por discursos cujo objetivo era de o dominar fisicamente, de reformar as mentalidades dos indígenas e de integrar as histórias económicas locais numa perspetiva ocidental. Esses saberes, principalmente movidos por um objetivo de governamentalidade e tendo como objetivo de justificar e de confortar a empresa colonial, olharam as culturas extra-ocidentais pelo prismo da superioridade cultural e do preconceito racista. Eles continuem infelizmente a fortamente estruturar a percepção do real africano e são um elemento da perpetuação da dominação, se não for da dependência. »
Além da escola e da administração, são as universidades e a área da pesquisa que foram objeto de uma colonização cultural pela língua, ainda amplamente atual: apesar do surgimento de estudos póscoloniais, as grelhas científicas ocidentais permanecem preeminentes nas universidades. As causas são ao mesmo tempo económicas e políticas. Económicas porque a maioria parte das pesquisas não deixa de ser financiada pelas instituições europeias ou norte-americanas, e os estudantes formados nos programas de cursos ocidentais. Em 2013, Cécile Canut, professora em Ciências da linguagem à Universidade Paris Descartes, escreveu, num artigo publicado na revista internacional francófona Cahiers d’études africaines: « A longa formação discursiva da linguagem em África, ou seja, toda a circulação dos discursos e dos pontos de vista que constituem o modo de apreensão da linguagem, inscreve-se portanto desde já num dispositivo científico governado por relações de força e de poder. A elaboração das teorias vindas do Norte obriga de maneira determinante as produções internacionais culminando em uma apreensão da linguagem que podemos qualificar de etnicista e de essencialista. »
No mesmo artigo, a autora nos explica as diversas manipulações operadas sobre os estudos das línguas pelos pesquisadores coloniais: tentativas de desmostrar uma « língua primeira » no continente, ou ainda de construir um laço contínuo entre Africanos e Europeus (em particular por meio do Egipto antigo, que é objeto de muitos trabalhos de pesquisa ao longo do século e meio que segue a campanha de Napoléon Bonaparte em 1799). Esta última tentativa pode ter particularmente alimentado as teorias racistas segundo as quais os Africanos os mais « brancos » (Mouros, Tuaregues, Peúles, etc., seriam de um nível inteletual superior aos Negros). É preciso esperar a década de 1960 para ver os discursos europeus adoptar uma séria mudança de paradigmo e considerar as línguas africanas, tal como outras línguas do mundo, como sistemas em si. Contudo, paradoxalmente, mesmo o interesse levado por etnolinguísticos europeus em relação a línguas africanas pode ter contribuido, de fato, a um apobrecimento da sua diversidade e da sua riqueza. Já o dissemos, o modelo de Estado-nação e as fronteiras herdadas da era colonial contribuirem a uma distância entre a diversidade cultural e linguística, por uma parte, e a orientação das políticas nacionais nas áreas da educação, da cultura e da diplomacia. Na continuidade de uma busca perpétua de racionalização, os idiomas africanos foram objeto, para muitos deles, de práticas de formalização, de homogeneização, de estandardização, com dicionários e gramárias, qui tenderam em categorizar as áreas linguístcas sem reconhecer a complexidade de línguas tratadas como objetos destacados das outras componentes culturais.
Criança estudando o seu Corão em alfabeto árabe, na aldeia de Idool, localizada na região de Adamawa, no norte de Camarões.
Alienação do pensamento pela força das palavras
Entre todas as ferramentas de dominação do imaginário ocidental sobre os afro-descendentes tratados por Frantz Fanon em Pele negra, máscaras brancas, publicado em 1952, a linguagem chega em primeiro lugar e nos parece absolutamente central. « Falar, diz ele, é sobretudo assumir uma cultura, suportar o peso de uma civilização. […] Um homem que possui a linguagem possui por via de conseqüência o mundo exprimido e implicado por esta linguagem.. » Não é por acaso de nenhum idioma africano está incluido hoje em dia nas línguas oficiais das instituições de cooperação internacional, e que os Estados africanos não se organizam para que acontece. Nas Antilhas como em África, a realidade linguística enfrenta um duplo processo nascido da colonização: a negação da diversidade linguística e cultural (para os muitos crioulos nas Antilhas, e as milhares de línguas africanas); e a inferiorização das línguas indígenas e não ocidentais, raramente reconhecidas como línguas de transmissão do saber académico merecendo um reconhecimento nacional e internacional. Dai, a palavra « dialecto », que permanece frequentemente usado para as designar. Até em África, só as línguas europeias vêem-se reconhecidas este valor. Por lembrança, em O francês é nosso! Pequeno manual de emancipação linguística (2019), Maria Candea e Laélia Véron, doutoras em língua francesa, deram a seguinte definição de um dialecto: « Fala-se de dialectos para designar as variedades regionais. Mas de um ponto de vista linguístico, é difícil diferenciar um dialecto de uma língua. O termo dialecto permite sobretudo de hierarquizar politicamente diferentes falares: enquanto uma língua tem um estatuto reconhecido, o dialecto designa uma variedade, a maioria das vezes oral, que não beneficia do mesmo reconhecimento social e institucional. » Elas acrescentam, na primeira parte « Como definir a língua? »: « Em linguística, é frequente ouvir, como formula simplificada, que uma língua é um dialecto que teve sucesso, ou um dialecto que dispõe de uma instituição escolar e de um exército. » Portanto o fato de qualificar um idioma de dialecto ou de língua, ou até de língua « nacional », ou de língua « oficial », é estritamente política.
Abordando a maneira paternalista e condescendente com a qual muitos Brancos falam aos Negros, como adultos falando a crianças (o que era verdade na sua altura, mas pode também constatar-se facilmente hoje em dia, com expatriados ocidentais morando em África), Frantz Fanon explica, ainda em Pele negra, máscaras brancas, em que medida esta condescendência revela uma ausência de reconhecimento cultural aos Africanos e aos afro-descendentes: « Falar mal [Parler petit-nègre, em francês], é exprimir esta ideia: "Tu, fica onde estás." Eu encontro um Alemão ou um Russo falando mal o francês. Por gestos, eu tento lhe dar a informação que ele reclama, mas fazendo isso eu não posso esquecer que ele tem uma língua própria, um país, e que ele é talvez advogado ou engenheiro na sua cultura. Em todos os casos, ele é estrangeiro a meu grupo, e as suas normas devem ser diferentes. No caso do Negro, nada de semelhante. Ele não tem cultura, nem civilização, nem esse "longo passado de história". Talvez encontramos ai a origem dos esforços dos Negros contemporâneos: custe o que custar, provar ao mundo branco a existência de uma civilização negra. »
A civilização sendo supostamente levada pelo Ocidento, o reconhecimento cultural passa necessariamente por um reconhecimento dos círculos inteletuais europeus e norte-americanos. Contudo, o domínio das línguas faladas nesses mesmos círculos inteletuais acompanha-se naturalmente da adopção de muitos dos seus códigos culturais e das suas grelhas de leitura. Embora, aplicadas às sociedades não ocidentais, e em particular às sociedades africanas, essas grelhas de leitura são desvalorizantes, e até desumanizante, pois as suas raízes encontram-se em épocas onde o pensamento racista era a regra. Dai, um processo interiorizado de depreciação de todos os elementos associados, de longe ou de perto, às culturas africanas e afro-descendentes – um processo, claro, ainda mais violente nas Antilhas pelo fato da própria estrutura das relações sociais herdadas da sociedade esclavagista, e sobre a qual Frantz Fanon trata amplamente no seu ensaio – mas que não abordaremos aqui. Aplicado às antigas colónias africanas, Fanon trata o caso de Madagáscar, para questionar o alegado complexo do colonizado: « Obviamente [...] o Malgaxe pode perfeitamente suportar não ser um Branco. Um Malgaxe é um Malgaxe; ou melhor, não, um Malgaxe não é um Malgaxe: existe absolutamente a sua "malgaxidade". Se é Malgaxe, é porque o Branco chega, e se, a um momento dado da sua história, ele é conduzido a questionar-se para saber se era um homem ou não, é porque esta realidade de homem lhe era contestada. Dito de uma outra maneira, eu começo a sofrir de não ser um Branco na medida em que o homem branco impõe-me uma discriminação, faz de mim um colonizado, extorque-me qualquer valor, qualquer originalidade, diz-me que eu sou um parasita para o mundo, que eu tenho que pôr-me o mais rapidamente possível nos passos do mundo branco […]. »
Este extracto é particularmente interessante porque questiona o impacto da colonização na própria defenição das identidades africanas pós-coloniais. Vemos bem hoje em dia que os movimentos kemitas ou panafricanistas procuram a sua própria justificação num trabalho de revalorização das civilizações e das narrações africanas antigas, procurando assim estimular um orgulho negro, mas isso deixa sem resposta uma pergunta: será que as populações negras definiam-se como tais antes da chegada dos Europeus na África subsaariana? (Ou antes dos primeiros contatos com as populações semitas, berberes, ou ainda polinésias, no que tem a ver com as populações de certas regiões como o Sahel, o vale do Nilo, ou ainda do Chifre da África?) Será que os próprios Africanos definiam-se como « Africanos » antes da colonização? Havia então uma consciência de « raça » ou de pertência a um mesmo continente? Pelo menos no plano do vocabulário, podemos duvidar disso, pois a palavra « África » nos vem da Roma antiga, a qual designava as suas províncias do sul do Mediterrâneo (Cártago, Numídia oriental, Tripolitânia, Bizacena) por Africa – certamente, inspirado do nome de uma tribo berbere indígena, os Afri, mas o mais provável é que os reinos do Kongo ou do Monomotapa nunca ouviram falar da « África » antes da chegada dos Europeus, ou pelo menos dos Árabes, pois esses recuperaram o nome e o arabizaram em Ifriqiya (ainda para designar a região costeira do norte da África).
No seu livro Meio sol amarelo (2006), a autora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie enfrenta esta de maneira direta esta problemática da pertença identitária, quando ela escreva, pela boca do seu personagem Odenigbo, um jovem inteletual envolvido nas questões políticas, no início da década de 1960: « A última identidade autêntica para o Africano, é a tribo. Eu sou nigeriano porque o homem branco criou a Nigéria e deu-me esta identidade. Eu sou negro porque o homem branco construiu a noção de negro para o deixar o mais diferente possível do branco dele. Mas eu era ibo antes da chegada do homem branco. » O amigo dele, o professor Ezeka, responde, sublinhando assim a complexidade da identidade africana: « Mas é por causa do homem branco que percebestes ser ibo. A própria ideia de pan-ibo formou-se só em reação à dominação branca. É preciso entender que a tribo tal como existe hoje é um produto colonial tal como a nação e a raça. » Bêbedo, Odenigbo grita para ele: « A ideia de pan-ibo existia bem antes do homem branco, pergunta lá aos idosos da tua aldeia para contar-te a tua história. » Esta reflexão é obviamente complicada, ainda mais porque a noção de « tribo », o seu valor (e a sua força) são diferentes segundo a realidade local, em países tão diferentes como a Costa de Marfim, o Zimbabue, ou ainda a Etiópia. « Na independência, em 1960, a Nigéria era uma coleção de fragmentos asseguradas por uma mão frágil », escreveu ainda Chimamanda Ngozi Adichie, neste livro onde ele descreve o país dela à luz da guerra do Biafra (1967-1970).
A identificação a cerca da negritude ou da África, se ela a primeiramente o fruto de uma relação de força com mundos estrangeiros (as potências imperialistas europeias em particular), questiona portanto a dois níveis: o primeiro, que já mencionamos, é a negação da diversidade e a complexidade deste conjunto geográfico que chamamos hoje em dia a África. O segundo, é o da definição de uma identidade tornada comum por uma experiência partilhada de violências, de desumanização e de exploração (a escravatura e a colonização), o que pode complicar a constituição de uma « comunidade de destino » orgulhosa das suas raízes, das suas realizações, do que ela é, e portanto a constituição de modelos alternativos ao modelo dominante. Embora sobre esse último ponto, pode-se considerar as coisas sob um ângulo mais complexo: na medida em que os diferentes povos africanos partilharam experiências similares de escravidão e de colonização com base uma desumanização do « homem africano » de maneira global, como homem negro, entende-se que a reabilitação histórica de uns reinos ou civilizações em África pode ser objeto de uma apropriação por todos os Africanos, inclusivo os que não são diretamente herdeiros desses mesmos reinos ou civilizações. Pois a reabilitação histórica desses reinos corresponde a um reconhecimento da sua contribuição ao « património da humanidade », e portanto a uma forma de reabilitação do Negro como ser humano. Nesta configuração, as histórias dos povos africanos são vistas como um todo, aninhado e indissociável, que qualquer Africano, ou até qualquer afro-descendente, poderia apropriar-se. Por lembrança, esta reabilitação histórica, foi um dos objetivos de Cheikh Anta Diop (1923-1986), físico senegalese e historiador empenhado, que procurou toda a sua vida mostrar a contribuição da África, en em particular da África negra, à cultura e à civilização, num largo sentido. Ele tentou em particular, em Nações negras e cultura (1955) e em Os Fundamentos culturais, técnicos e industriais de um futuro Estado federal de África negra (1960), provar as origens negras dos primeiros faraós do Egipto antigo, para dar aos Africanos o orgulho comum de um passado prestigioso, e permitir assim considerar um futuro comum desejável.
O uso da língua a níveis institucionais e académicos
A grande distância entre o mapa das línguas oficiais, por um lado, e as efetivamente faladas no dia a dia no continente africano, tem como deixar perplexo. Pois, fato bastante mal medido mas dificilmente contestável: os cidadãos africanos são por muitos deles, poliglotas, dominando ao mesmo tempo a antiga língua colonial e um ou várias línguas nacionais e vernáculas. O exemplo da República democrática do Congo é emblemático disso. Língua oficial: o francês, língua usada na administração e na escola. Línguas nacionais: o munukutuba (ou kituba) e o lingala. Línguas vernáculas: quase sessenta. Contudo, como explicado por Cécile Canut, a linguagem, no contexto pós-colonial, é o terreno de relações de poder e de força que têm como deixar esquizofrénico. Pois essas relações de poder, não opõem apenas as línguas africanas às línguas coloniais. Opõem também as línguas africanas entre elas. Ai, ainda, o modelo simplista de Estado-nação constitui uma ferida, porque não permite imaginar um horizonte culturalmente plural e multilíngua para os Estados nascidos da descolonização. E na medida em que só o cenário de apenas uma língua preeminente é possível, a antiga língua colonial é muitas vezes a única capaz de fazer consenso, já que ela oferece um postulado de « neutralidade » nas relações entre comunidades…
Excepto que ela não o oferece no âmbito das relações com os outros Estados, e em particular com a antiga potência colonial para quem o uso daquela língua permanece obviamente uma ferramenta de diplomacia e de influência política, económica e cultural – a Francofonia, por exemplo, sendo às vezes associada ao imperialismo francês. A exclusão do economista togolês Kako Nubukpo da Organização Internacional da Francofonia (OIF), por ter criticado em várias ocasiões, em Novembro e Dezembro de 2017 em particular, mas também uma obra que ele dirigiu (publicado em 2016), a existência do franco CFA, o qual ele considera como uma ferramenta de dominação económica e simbólica da França sobre a África, esta exclusão, portanto, questiona sobre a postura e o papel daquela instituição, cujos próprios objetivos oficiais, de fato, são problemáticos, pois parecem sensivelmente longe da única questão linguística. (Por lembrança, a OIF tem quatro missões oficiais, apresentadas como assim no seu site Internet em 2020: « promover a língua francesa e a diversidade cultural e linguística; promover a paz, a democracia e os direitos humanos; apoiar a educação, a formação, o ensino superior, e a pesquisa; desenvolver a cooperação económica ao serviço do desenvolvimento sustentável ».) As contribuições africanas à literatura e à música francófonas, anglófonas, lusófonas ou ainda arabófonas, devem nos convencer de uma apropriação plena e inteira dessas línguas por milhões de cidadãos africanos. De fato, a língua francesa lhes pertence também. Uma língua é algo de dinámico, não de parado, ela é apropriada e evolui em função do uso que os falantes fazem dela. Contudo, num contexto de dominação política e económica, essa apropriação nãp pode compensar a violência que constitui a pura e simples exclusão dos idiomas africanos da área inteletual. Pois é preciso abordar a questão da língua no plano mais largo dos imaginários e dos limites do pensamento – determinado pela língua. Mas as representações e as grelhas de leitura são ainda muito eurocentradas. A Organização das Nações Unidas conta seis línguas oficiais, entre as quais nenhuma é estritamente africana: o inglês, o árabe, o chinês, o espanhol, o francês e o russo. Nenhuma língua africana constitui uma língua diplomática, não obstante várias línguas transnacionais, como o lingala na África central (entre 20 e 30 milhões de falantes mais ou menos), o hauçá na África de Loeste e no Golfo de Guiné (entre 20 e 50 milhões de falantes, segundo as fontes), o pular na África de Loeste e central (estimado a 40 milhões de falantes), e o suaíli na África de Leste e central (com quase 150 milhões de falantes). As universidades e centros de pesquisa só produzem nas línguas europeias, e seguindo grelhas científicas ocidentais.
Em Afrotopia, Felwine Sarr aborda assim a problemática da produção inteletual e universitária: « Trata-se de operar uma transformação radical das ciências humanas e sociais tal como são pensadas e ensinadas nas universidades africanes. [...] Este projeto de refundação necessita um trabalho de retomada nas ciências sociais, que passa por uma interrogação epistemológica sobre os objetos, os métodos e o estatuto do saber produzido pelas ciências humanas e socais, tal como elas são praticadas nas realidades africanas. [...] Trata-se, para restaurar a fecundidade das ciências humanas e sociais africanas, de questionar a universalidade do saber social produzido a partir das sociedades ocidentais. » Ele ainda acrescenta: « [Valentin Yves Mudimbé] pergunta-se se a ordem do discurso africano procurado não poderia ser atingido substituando as línguas africanas pelas línguas africanas. Uma mudança de ferramenta linguística de conhecimento e de produção científica provocaria uma ruptura epistomológica e abriria o caminho e uma ventura nova para a África, da mesma maneira que os promotores do pensamento grego, transplantando na sua língua, técnicas, métodos e usos do conhecimento recebido pelo Egipto, provocaram uma reorganização do saber e da vida cuja ordem essencial é ainda atual. Junta-se nesse assunto a Wiredu e Ngugi Wa Thiong’o, que estimam que recorrer às línguas africanas permitiria não só descolonizar as mentes e os imaginários, mas também revelar interioridades e universos significantes inscritos numa ordem do mundo que faz sentido intimamente para os Africanos. As línguas abram galáxias, universos e mundos que trata-se de investigar. As línguas africanas são os caminhos de acesso privilegiados permitindo tomar em carga as culturas em questão, tam como os seus conteúdos em termos de pensamento e de saberes. »
Vemos facilmente em que medida, por falta de vontade política forte e de visão, esta questão de um recurso às línguas não europeias na produção académica e universitária na África parece inextricável. Pois convem naturalmente conferir meios financeiros e humanos, e considerar novas formulas inspiradas de práticas antigas e adaptadas ao real. No entanto, os obstáculos não são insuperáveis, e exemplos interessantes de iniciativas neste sentido já se observam do outro lado do Atlântico, onde a herança ameríndia tem dificuldade a afirmar-se na área académica, dado a história colonial e pós-colonial particularmente violente que os povos indígenas conheceram no continente americano – a qual história consagrou, desde a chegada dos Europeus no século XVI, a hegemonia absoluta das línguas europeias (espanhol, português, francês, inglês, neerlandês) e o genocício cultural dos indígenas (além do puro e simples genocídio).
Podemos em particular mencionar o exemplo, no Peru, da linguista Roxana Quispe Collante, a qual defendeu, em 15 de Outubro de 2019, a sua tese em quechua, e não em espanhol, na Universidade San Marcos de Lima, criada em 1551. O seu trabalho de pesquisa intitula-se As lágrimas de sangue, transfiguração e singularidade no mundo poético quechua do harawi [um tipo de música tradicional] de Andres Alencastre Gutiérrez. Já tinha sido integralmente redigido em quechua, antiga língua vernácula da civilização inca e língua oficial no Peru desde 1975, falada por mais de dez milhões de pessoas no continente sul-americano (entre os quais quatro milhões no Peru). De fato, o quechua nunca foi proibido, pois até era usado, ao custo das outras línguas ameríndias, no âmbito da conversão das comunidades indígenas ao cristianismo. Contudo, este evento constitui em si uma micro-revolução que contribui certamente a descolonizar os imaginários e a uma mudança de paradigmo nos círculos inteletuais e académicos: a partir dai, o saber e a pesquisa podem ser considerados sob fronteiras linguísticas indígenas não ocidentais. Aliás, inscreve-se numa dinâmica mais ampla naquele país: uma deputada exprime-se agora em quechua no Parlamento, e a rádio-televisão pública (IRTV) propõe programas nesta língua desde 2016. Um pouco mais recentemente, programas em aymara e em duas línguas amazônicas, o asháninka e o shipibo-conibo, foram lançados. Algumas escolas até propõem agora um ensino bilingue.
Não se trata aqui de dizer que os contextos linguísticos, políticos, culturais, são absolutamente transferíveis de um continente para o outro. Ainda mais porque certas problemáticas são diferentes de um país para o outro na própria África – por exemplo, a relação da sociedade com a sua língua pode ser bem diferente (e tranquilo) num país como a Etiópia, onde o amárico é ao mesmo tempo língua nacional e oficial, dotada de um alfabeto específico, e usada diariamente pela grande maioria da população etíope, na rua como também nos círculos académicos. O objetivo do exemplo peruano mencionado acima, é mais dar luz à oportunidade de outras abordagens, mais inspiradas por antigos países colonizados que têm ainda que lidar com a herança colonial, do que por países europeus que ergueram um modelo de Estado-nação simplista que esmaga as identidades e o conceito de diversidade – e que revela-se, por via de conseqüência, mortífero e empobrecente para um continente como a África, tal como o foi para a Europa ocidental. Além disso, convem lembrar que as dificuldades para emancipar-se da dominação linguística ocidental perdurarão, sem uma revalorização mais ampla das áreas do saber não ocidental. A equação é simples: qual é a margem das línguas africanas para impôr-se nos setores científico, medical, sociológico, filosófico, historiográfico, etc., tendo em conta que as produções africanas nesses mesmos setores não são reconhecidas nem apoiadas pelos poderes públicos, pelas massas, pelos próprios inteletuais e pesquisadores africanos. É necessário constatar, a maioria das vezes, uma falta de visão política que permite as condições de uma simples continuidade com a situação pós-colonial. E no entanto, as margens de manobra são enormes, e responderiam a um pedido de muitos cidadãos africanos frustrados por uma oferta limitada e vezes demais circunscrita a iniciativas cidadãs. Editores especializando-se na impressão e na difusão de obras em línguas africanas ainda não são criadas e apoiadas pelos poderes públicos, em todo lugar no continente. Iniciativas políticas tomadas por coligações de Estados partilhando línguas transnacionais (suaíli, pular, etc.) poderiam também ser imaginadas e conduzidas para as erguer em línguas « diplomáticas » (formando o pessoal das embaixadas e os seus diplomatas, por exemplo), e impulsar assim o seu reconhecimento ao nível das instituições internacionais. Indústrias cinematográficas nacionais, em línguas africanas, ainda podêm ser mais desenvolvidas. As áreas de aplicação e de imaginação são consideráveis, logo que as línguas indígenas devem reapropriar-se os setors da vida social e da produção inteletual e cultural.
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