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O acendedor de lampiões

O cristianismo no continente africano, legado europeu nunca contestado

2 Août 2026 , Rédigé par David Brites Publié dans #História, #Identidade, #África

Vista na catedral do centro de Maputo, en Moçambique.

Vista na catedral do centro de Maputo, en Moçambique.

Em Fevereiro de 2005, uma proposta de lei em França incluiu um artigo que ambicionava de incluir nos programas escolares de História os « aspetos positivos da presença dos colonizadores franceses, em particular em África do Norte ». Uma ideia problemática, pois o princípio de « aspetos positivos » é contestável. Porque, claro, em nome duma missão de civilização dos países europeus, foram construídas escolas, hospitais e estradas em África. No entanto, a colonização não é um projeto de desenvolvimento de territórios. É um processo de extensão territorial caracterizado por fluxos migratórios, substituição de populações, e pela ocupação, exploração e dominação política, cultural, religiosa e económica duma sociedade por uma outra. Ou seja, qualquer infra-estrutura construída naquele altura servia a explorar o território e a facilitar o trabalho dos colonizadores europeus – incluindo a escola, que servia a divulga a língua e a manipular as consciências. Nenhuma valorização do bem-estar material ou do património pode o justificar.

As « contribuições » da colonização foram várias vezes denunciadas, criticadas, contestadas. Mas há uma que nunca foi desafiada: é a introdução e a conversão do cristianismo no continente africano. Uns elementos de reflexão.

Caricatura da Conferência de Berlim em 1885. Nos anos 1880-1890, os países europeus organizam entre eles a partilha do continente africano.

Caricatura da Conferência de Berlim em 1885. Nos anos 1880-1890, os países europeus organizam entre eles a partilha do continente africano.

Uma igreja cristã em Addis Abeba, na Etiópia.

Por lembrança, o cristianismo em África apareceu pela primeira vez nos primeiros séculos da área cristã. Entre os primeiros Padres que levaram esta religião, conta-se Berberes, e também Egipcianos e Etiopianos converteram-se cedo na história.

Na primeira versão da organização da Igreja, a Pentarquia (ou seja, as 5 « cabeças » da Igreja), conta-se, em terceiro lugar, a Igreja de Alexandria, que tinha prerrogativas até a Etiópia. Por outro lado, os Vandales e depois os Bizantinos divulguem a religião pela parte ocidental da África do Norte. A expansão muçulmana, a partir do século VII, é que vai interromper a do cristianismo.

É preciso esperar as Grandes Descobertas europeias para ver de novo missões católicas, exclusivamente portuguesas até a abolição da escravatura, mas são poucas. No fim do século XIX, somente 1% dos cristãos são africanos.

No século XX, uma novo área de expansão inicia-se, sobretudo na parte subsaariana, onde o islam está ainda pouco implantado, sobre tudo com o proselitismo evangélico, mas também com a aparição de novas igrejas. O catolicismo fica também aumentando, sobretudo nas antigas colónias portuguesas, belgas e francesas.

No início do século XXI, a África é o continente onde o número de cristão aumenta o mais depressa, apesar desta religião ter sido imposta pelos colonizadores europeus. Em 2010, mais ou menos 23% dos cristãos no mundo estão em África. E o cristianismo é a religião a mais praticada en África subsaariana (63%), frente ao islam (30%) ou as religiões tradicionais.

A Igreja etiopiana ortodoxa é uma das mais antigas do mundo, constituída na século IV, e independente da Igreja egipciana copte desde 1959. São 30 milhões de ortodoxos, que representam 43,5% da população etiopiana; na Eritrea, os ortodoxos representam 20% da população. Claro, este ramo da religião cristã não é o alvo deste artigo, pois a conversão desta comunidade cristã não fez-se na mesma dinâmica histórica do que os cristãos convertidos na âmbito da colonização.

A parte dos católicos nos cristãos africanos são mais ou menos de 21%, e o número aumentou entre 2005 e 2015 a um ritmo mais elevado do que o do crescimento da população na mesma altura. Os outros (protestantes e evangélicos) representam uns 36% da população subsaariana. A África conta uns 165 milhões de evangélicos, e estão em expansão.

As Igrejas de instituição africana foram fundadas pelos próprios Africanos e não por missões europeias. Elas contam umas centenas de milhares de fieis. As mais importantes são o Kimbanguisme na República democrática do Congo, a Igreja harriste na Costa de Marfim, ou o movimento Aladura no Nigéria; foram fundadas entre as duas guerras mundiais e tomaram papel na descolonização.

Além desta categorização, uma pesquisa avaliou em 1968 quase 6.000 Igrejas independentes em África, e 11.500 em 2004, muitas totalmente desconhecidas na Europa.

Igreja de tipo católica na Ilha de Moçambique, na província de Nampula, em Moçambique.

Igreja de tipo católica na Ilha de Moçambique, na província de Nampula, em Moçambique.

Igreja na ilha de Fadiouth, no Senegal.

A religião cristã no processo colonial: qual foi o seu papel na aculturação?

É importante, em vez da visão tradicional que situa quase exclusivamente o papel da religião na dinâmica colonizadora, numa perspectiva europeia, privilegiar a multiplicidade das abordagens, pois as relações entre religiões e colonização são complexas. É difícil saber qual é o grau de interconexão entre as missões e a colonização, e os historiadores não concordam todos para assegurar que houve uma imbricação entre os dois... a pesar das missões se terem multiplicadas com a aceleração da colonização nos séculos XIX e XX. As relações entre o Estado colonial e as missões foram complexas, feitas de colaboração, de consensos e de conflitos  sobretudo depois do tempo colonial ibérico, pois nos primeiros tempos coloniais a religião serviu de « quadro conceptual » e a Igreja participou ativamente à colonização , no entanto, globalmente, pode-se dizer que o Estado colonial apareceu como o protetor natural da missão cristã.

Incluído em França, a laicidade não foi « exportada » em África. Os missionários foram agentes de transmissão do espírito colonial e da influência nacional do país colonizador. O poder político procurou colocar as missões em uma posição subordinada e as instrumentalizar, com mais ou menos sucesso. Somente depois da Primeira Guerra mundial, é que viu-se cada vez mais as missões « separar-se » do poder colonial e até mesmo defender os direitos das populações e entender as vontades de independência. Esta realidade foi similar em todos países coloniais, no entanto o protestantismo expandiu-se mais a favor de ações de exploradores, comerciantes, filantropes, sem projeto colonial mas com uma visão universalista.

A religião assumiu um papel considerável no processo de aculturação das sociedades africanas, no tempo colonial como também pós-colonial. O fato religioso tornou-se um ferramenta ideológico essencial. Desde o Ocidente, o olhar sobre os povos colonizados era por parte determinado nas crenças de uns e outros, e por isso, a hierarquia das raças era ligada à hierarquia das religiões: o cristianismo em cima, as religiões orientais e o islam a seguir, e em baixa, as religião fetichistas. Ou seja, o progresso do cristianismo era vista como o da civilização.

O que deixa complicado a questão da religião cristã como ferramenta da colonização europeia, ou seja, dum processo violenta, é que, sim a recepção do cristianismo passou lentamente dum estado de rejeito a o da aceitação, no entanto o que a final se observou muitas vezes é uma forma de apropriação. Talvez um pouco como o fizeram os negros deportados como escravos no continente americano, e com os quais viu-se muitos fenômenos de sincretismo. Em África também, os colonizados nunca foram, como pensa-se em geral, vítimas apáticas, e o cristianismo não foi transmitido por mensageiros ativos para recebedores passivos. Os colonizados assimilaram, reinterpretaram, transformaram a religião transmitida, sob a forma de derivações creativas, em função das suas próprias raízes religiosas. O fato da instituição religiosa ter entrada nas estratégias de mobilidade social dos colonizados ajuda este fenômeno, pois adoptar o cristianismo permitia aproximar-se dos Europeus e dos assimilados, e então « inserir-se » na sociedade colonial. O cristianismo é considerado e esta visão permanece, o que motiva este artigo como um fator de « modernidade », frente a religiões locais rejeitadas no « tradicional », oposição binária que reproduz a hierarquização das crenças.

Pois de fato, a religião serviu de braço armado ideológico à colonização. A « missão civilizadora » que auto-proclamaram os países europeus à África devia levar, invariavelmente, uma componente religiosa muito forte. É bem disso que se trata ainda hoje. Há uma forma de desprazo para os ritos pré-coloniais, pois fica o sentimento que a prática cristã aproxima mais os seres humanos da « civilização ». A introdução duma religião cuja o Livro sagrada descreve um mundo se limitando à área euro-mediterrâneo e meio-oriental, onde os homens brancos dominam  ainda mais quando a figura do Cristo e da Virgem Maria estão sempre caricaturados em loiros com olhos azuis , difusa de maneira mais ou menos implícita uma mensagem de hierarquia racial, até aos olhos de Deus. E esta situação dá aos colonizadores uma missão profética, que participa a relativizar a violência do processo de dominação e de exploração que os traz no continente africano.

Estátua em Cotonou, no Benim.

Um legado europeu, transmitido no contexto colonial... e no entanto nunca contestado

Pode parecer estranho o fato de esta religião europeia não ter sido mais rejeitado do que foi pelos diferentes movimentos independentistas ou pan-africanistas. O argumento de uns ou outros de dizer que não há antinomia entre pan-africanismo e cristianismo contesta-se facilmente, pois basta ler o Antigo e o Novo Testemunho para entender que a Bíblia foi escrita com olhos meio-oriental, ignorando os 3/4 do mundo, ou seja as civilizações americanas (pré-coloniais), africanas, oceânicas, e certas asiáticas. O cristianismo, não só por ter sido trazido por Europeus num contexto violente, é uma religião europeia, ainda mais se tratamos dos ritos católicos (a capital deste dogme é Roma...), protestantes e ortodoxos. Esta religião participou, tal como outros aspectos de aculturações levados pela colonização e os tempos pós-coloniais, à erosão das riquezas e dos valores intelectuais, culturais, religiosos e políticos da África subsaariana. Certas criticas foram feitas sobre os missionários, por exemplo o primeiro presidente do Kenya, Jomo Kenyatta, quando ele declarou: « Os missionários, quando vieram, tinham nas suas mãos a Bíblia e nós as nossas terras. Eles nos pediram para fechar os nossos olhos para rezar. Quando abrimos os olhos, eles tinham as nossas terras, e nós a Bíblia deles. » mas a critica vem sobre a dimensão religiosa da colonização e não sobre o princípio mesmo da religião cristã.

O argumento que vem dizer que a Igreja participou, a pesar de barreiras, a dar a Africanos estruturas sociais ajudando a emancipação deles, finge de esquecer o nível de aculturação (violente simbolicamente e culturalmente) que supõe este ajuda « cristão » à assimilação europeia, durante a colonização, e à chamada emancipação dos Africanos, durante a luta pelas independências. A educação religiosa fez-se ao custo do conhecimento do saber, dos valores, das tradições, dos costumes pré-coloniais.

O argumento que supõe que a religião cristã é universal, e que a Igreja, os missionários, os homens em geral, é que equivocaram a mensagem quando usaram da força para a impor, também é contestado porque ele esquece que todas as religiões do mundo nascem em contextos bem particulares e são herdeiras dum sistema de valor, duma realidade histórica, dum certo conhecimento do mundo, que impõe relativizar certas coisas; é o que explica que tantos extra-Europeus (de América latina, de África, etc.) « adaptaram » às suas crenças e tradições os ritos cristãos, criando um forte sincretismo. E de fato, muitas pessoas que praticam hoje esta religião no continente africano não questionam-se sobre a relevância da presença deste dogma que nasceu e desenvolveu-se, e foi pensado e teorizado no Mediterrâneo e na Europa. Hoje em dia, as instituições religiosas propriamente « africanas » são muitas vezes infelizmente o resultado de certos charlatões. A notícia recente segunda a qual o continente africano domina a classificação dos 20 pastores os mais ricos do mundo, ilustra esta situação absurda, enquanto a religião cristã é suposta promover a humildade e a simplicidade de vida, não a acumulação de riqueza; nestes, sete são nigerianos e tornaram-se celebridades nacionais.

O cristianismo no continente africano, legado europeu nunca contestado
Igreja cristã católica na região de Sine-Saloum, no Senegal.

Igreja cristã católica na região de Sine-Saloum, no Senegal.

Na região de Sine-Saloum, no Senegal.

O texto a seguir, escrito em 1961, é extrato do prefácio que Jean-Paul Sartre escreveu ao livre Os Condenados da Terra, escrito e publicado no mesmo ano pelo psicanalista e ativista anti-colonial Frantz Fanon. Escrita antes da independência de Moçambique, e até antes da luta pela independência, esta obra aplica-se extraordinariamente ao caso deste país, como ao da Angola. Frantz Fanon descreve com perspicácia os riscos que já aparecem então de perversão das independências.

No extrato a seguir, Jean-Paul Sartre analisa a raiva que sentem as populações colonizadas, e, ao longo destas linhas, o escritor e filosofo existencialista francês aborda a questão da alienação dos « indígenas » à religião, em vez da alienação colonial.

Ele condena as práticas de devoção excêntricas praticadas pelos colonizados, tanto como a situação de nova submissão na qual eles se colocam então.

Esta continua fúria, em vez de sair, perpetua-se e destroca os próprios oprimidos. Para libertar-se dela, eles matam-se entre eles: os tribos estão lutando uns contra os outros, porque eles não podem enfrentar o verdadeiro inimigo – e você pode contar com a política colonial para manter essas rivalidades; o irmão, levantando a faca contra seu irmão, pensa destruir, uma vez por todas, a imagem adiada do seu rabaixamento comum. No entanto, essas vítimas expiatórias não satisfazem esta sede de sangue; eles só não caminharão contra as metralhadoras tornando-se nossos cúmplices: esta desumanização que eles recusam, eles vão por própria conta acelerar o seu progresso. Sob os olhos divertidos do colonizador, eles protegem-se contre eles próprios por barreiras sobrenaturais, às vezes ranimando velhos mitos terríveis, às vezes amarando-se por ritos meticulosos: assim o obcecado fuge a sua exigência profunda, infligindo-se modismos que o mobilizam cada momento. Eles dançam: uma ocupação; solta os músculos deles, dolorosamente contratados, e em seguida a dança mima em segredo, muitas vezes sem eles saberão, o Não que eles não podem dizer, os homicídios que eles não ousam cometer. Em algumas regiões eles usam esse último recurso: a possessão. O que era antigamente o fato religioso na sua simplicidade, uma certa comunicação do fiel com o sagrado, eles fazem disso uma arma contra o desespero e a humilhação [...]. Ao mesmo tempo, estes altos personagens os protegem: isto significa que os colonizados defendem-se da alienação colonial insistindo na alienação religiosa. Com este resultado único, a final de conta, que eles cumulam as duas alienações e que cada uma reforça a outra. Assim, em certas psicoses, cansado de ser insultado todos os dias, os alucinados irão um dia ouvir uma voz angelical que os complementa; vaias não cessam no entanto: agora alternam com parabéns. É uma defesa, e o fim da aventura: a pessoa é dissociada, o doente está sendo ganhado pela demência. Acrescentam, a uns infelizes rigorosamente selecionados, esta outra possessão que eu mencionai acima: a cultura ocidental. Em seu lugar, você diria, eu ainda prefiro minhas [crenças] a Acrópole. Bom: você entendeu. Não perfeitamente pois você não está em seu lugar. Ainda não. Caso contrário, você sabaria que eles não podem escolher: eles cumulam. Dois mundos, faz duas possessões: dança-se toda a noite, ao amanhecer, nos pressionamos nas igrejas para ouvir a missa; dia a dia o ferimento cresce. Nosso inimigo trai seus irmãos e torna-se nosso cúmplice; seus irmãos fazem o mesmo. A população indígenas [« indigénat », em francês] é uma neurose introduzida e mantida pelo colono, nos colonizados, e com o consentimento dos mesmos colonizados.

Jean-Paul Sartre, prefácio ao livre Os Condenados da Terra de Frantz Fanon (1961).

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