Quénia: nas ruínas do Forte Jesus, quando o controlo dos mares e do comércio estava em jogo em Mombaça
Sob um sol pesado, caminhamos ao longo das muralhas e damis a volta dos velhos canhões colocados em vários lugares. A nossa guia, Irene, uma jovem estudante queniana recém-formada em turismo, leva-nos e nos explica em detalhas as lutas de influência que marcaram tanto a região da África de Leste durante séculos, e das quais o forte Jesus constitui um dos símbolos mais óbvios. Durante mais de três séculos, antes mesmo da dominação britânica, Portugueses e Árabes-muçulmanos, em primeiro lugar o Sultanato de Omã, combaterem-se frequentemente, com ou sem a complicidade das comunidades locais. O visitante lambda anda em Mombaça seguindo os passos de Ibn Battuta, Marco Polo e Zhang He, nomes reveladores da importância comercial e do caráter estratégico da cidade ao longo dos séculos. Todas as batalhas para a controlar estão na origem do apelido suaíli da cidade: « a ilha da guerra » (Kisiwa Cha Mvita).
O cerco de Mombaça conduzido no final do século XVII pelo soberano Ya’rubid do Império omanês, Saif I bin Sultan, contra o forte português é muito representativo desta luta de influência. Num tom ao mesmo tempo épico e dramático, em 13 de Dezembro de 1698, há exatamente 325 anos, um punhado de soldados portugueses fizeram explodir com dinamite o último recanto do forte no qual eles se tinham refugiados após mais de dois anos de cerco pelas forças árabes. Uma retrospectiva neste episódio e na história deste monumento importantíssimo, localizado em margem do centro histórico de Mombaça, à beira do oceano Índico.
Em 7 de Abril de 1498, há quase 530 anos, os navios do Português Vasco de Gama cruzam as costas da África de Leste, no caminha para a Índia, e as suas especiarias tão preciosas. Na continuidade das primeiras expedições que conduziram os Portugueses desde Ceuta (1415) até o Cabo de Boa Esperança (1488), esta aventura marca o início de uma era nova, que vai durar vários séculos e ver opor-se poderes portugueses e árabes, antes que impõe-se a dominação britânica no século XIX. A história escrita da costa africana neste período de quatro séculos é essencialmente a do comércio e da conquista por forças externas.
Logo no século I da era cristã, a presença de comerciantes iemenites é confirmada na África de Leste. A sua atividade principal: o comércio das especiaras, da madeira, do ouro, do marfim, das escamas de tartarugas, e das cornas de rinocerontes… sem esquecer o dos escravos. A sua presença, tal como a dos comerciantes persas, vai criar mestiçagem com as culturas africanas indígenas para dar nascimento à cultura e à língua suaíli (do árabe sawahil significando « da costa ») – hoje língua de trabalho da União Africana e uma das línguas oficiais do Quénia e da Tanzânia, e língua materna de mais ou menos 15 milhões de pessoas (segunda língua de mais ou menos 35 milhões de falantes). Notamos, entre parênteses, que os Suaílis, se eles domiravam culturalmente e comercialmente a região, não eram os únicos habitantes da costa. Podemos mencionar, em particular, os Mijikenda (ou as « nove etnias costeiras »), os Bantus que instalaram-se há seis séculos nas forestas sagradas (kaya) encontradas na costa do Sul do Quénia.
No século X, a região de Zanj (que corresponde à costa do Quénia e da Tanzânia modernas) exportava para a Arábia e a Índia peles de leopardo, escamas de tartaruga, cornas de rinocerontes, marfim, ouro e sobretudo escravos. Os sítos de Shanga, Gede, Lamu e Mombaça, tal como Zanzibar na Tanzânia, eram uns dos seus principais portos. Kilwa, 300 km ao Sul de Zanzibar, marcava o llimite meridional da área de navigação do tradicional dhow árabe. Durante mais de 700 anos, até 1450, a única influência externa que conheceu a África subsaariana foi aquela do mundo árabe-muçulmano.
Ruínas de Gede, antiga cidade-Estado arabo-suaíli, no litoral do Quénia.
A chegada dos Portugueses e as tensões com os Árabes e os indígenas
Embora ignoramos a data exata da sua criação, Mobaça já era um porto próspero no século XII. A cidade rapidamente se impôs como uma escala importante nas rotas comerciais do oceano Índico. Ao longo das costas do Sul e de Leste da África, no caminha das Índias, em 1497-1498, Vasco de Gama contou ter visto no delta do Zambeze uns dhows carregados de ouro em pó. Os Portugueses fortalecerem a sua posição na região pelo uso da força e do terror, em nome da luta do cristianismo contra o islão. Chegando com os seus navios fortemente armados nos principais portos suaílis, exigirem a sua submissão à coroa portuguesa e o pagamento de tributos anuais exorbitantes. As cidades que exprimirem uma oposição foram objeto de uma repressão feroz e os seus bens foram confiscados. Zanzibar foi o primeiro capturado em 1503.
Vasco de Gama é o primeiro Português a desembarcar na ilha de Mombaça, em Abril de 1498. Dois anos depois, os seus compatriotas regressaram e saquearam a cidade, sem aí permanecerem de forma durável. Os Portugueses aproveitavam então os conflitos locais para estender a sua dominação. Em 1505, eles retomaram e saqueram Mombaça, ao favor de uma aliança com um porto rival, Malindi, situado a uma centena de kilómetros a Norte. De novo em 1528, Nuno da Cunha toma Mombaça pela diplomacia, desta vez oferecendo-se como aliado nos conflitos com Malindi, Pemba e Zanzibar, antes de retomar o controlo da cidade pela força; uma outra vez, Mombaça foi reduzida a cinzas.
Pior ainda, seguiram-se incursões dos Kamba do interior, e depois os ataques otomanos à costa suaíli em 1585 e 1589. Este último ataque é, segundo umas crónicas portuguesas, fortuitamente combinado com a chegada, em plena batalha, de membros da tribo Zimba (ou Zamba), os quais fogem a fome que afetou o inerior da África na década de 1580, e seguem e sequeam a costa desde Pemba em direção a Norte. São precisamente estes ataques que sensibilizaram os Portugueses para a importância de melhor protegerem as suas possessões localizadas a Norte da costa suaíli.
Em 1591, o rei de Portugal (e de Espanha) Felipe I autorizou portanto a construção de um forte na ilha de Mombaça: o forte Jesus. O seu nome advém do facto da frota portuguesa navegar sob a bandeira da Ordem de Cristo. Em 1593, a sua construção marcou o desejo dos Portugueses de se estabelecerem definitivamente. Ironicamente, a sua construção coincide com o início do fim da hegemonia portuguesa. Acima de tudo, o imponente edifício tornou-se um alvo simbólico para os líderes rebeldes e foi constantemente cercado, atacado, até que os sultões de Omã expulsaram definitivamente os Portugueses, em 1698. Teatro das rebeliões suaíli, a obra mudou de mãos pelo menos nove vezes entre 1631 e 1875, quando passou sob o controle dos Britânicas, os quais fizeram dela uma prisão. Tornou-se um museu em 1960.
Ruínas de Mnarani, antiga cidade suaíli, no litoral do Quénia.
Forte Jesus, a sua edificação e as suas passagens de mão
Hoje em dia, no Quénia e na Tanzânia, castelos e mesquitas esculpidos no coral são notados ao longo da cista, para o prazer dos turistas. O Forte Jesus, o qual domina o porto e a velha cidade de Mombaça, é o modelo do género. Classificado património mundial pela UNESCO como bem cultural, os seus muros, com um metro de espessura, são decorados no seu interior com frescos, inscripções em letras romanas ou árabes, e elementos em suaíli, as quais, além de embelezar o sítio, fixam na pedra toda a história de Mombaça e do litoral. A sua atividade militar durou, a final, mais de trezentos anos.
As obras iniciaram em 11 de Abril de 1593 para acabar-se em 1596. É um dos mais bonitos exemplos da arquitetura portuguesa do século XVI. Construido numa crista coralina situada na parte Leste da ilha, o plano é um retângulo dotado de um cavaleiro que serve de masmorra, dominando uma esplanada fortificada a nordeste (do lado do mar), e de quatro baluartes.
O Forte Jesus foi a última criação de Giovanni Battista Cairati, arquitato milanês que ergueu edifícios em todas as colónias orientais du Portugal, sob o reinado de Filipe I, desde Mombaça até Goa. Caracterítico da arquitetura militar da época, o forte, desde que bem guardado, era inexpugnável porque os ataquantes não podiam aproximar-se dos muros sem cair no fogo cruzado dos defensores.
Entretanto é criada, em 1594, uma feitoria que acrescenta-se às de Sofala mais a Sul, e a de de Malindi mais a Norte. Mombaça torna-se então o mais importante centro de comércio português desta costa, o que leva o capitão do donatário Mateus Mendes de Vasconcellos a fazer dela a sua residência, abandonando assim Malindi.
O Forte Jesus, em Mombaça (Quénia).
As relações entre os Portugueses e o sultão de Mombaça Muhamad Yusuf deterioraram-se rapidamente após a partida de Mateus Mendes de Vasconcellos. Em 15 de Agosto de 1631, o sultão ataca por surpresa a guarnição do forte que foi massacrada, assim como a população portuguesa de Mombaça (45 homens, 35 mulheres e 70 crianças). Os Portugueses enviam uma expedição para reconquistar o local, mas desistiram após dois meses de cerco que durou entre o 10 de Janeiro e o 19 de Março de 1632. Em 16 de Maio do mesmo ano, Muhamad Yusuf abandona Mombaça para tornar-se pirata. Em 5 de Agosto seguinte, uma pequena tropa portuguesa comandada pelo capitão Pedro Rodrigues Botelho, vinda de Zanzibar, atinge Mombaça e reocupa o forte. Esta ocupação durou até Dezembro de 1698 e permite grandes obras de renovação e de planejamento em 1635 e em 1648. Em Fevereiro de 1661, as tropas do sultão de Omã, Sultão bin Saif I, saqueam a cidade mas não ousaram atacar o forte.
Em 13 de Março de 1696, uma nova expedição omanese, ordenada por Saif I bin Sultão, atinge Mombaça e inicia o cerco do forte. A guarnição deste último é composta por 50 e 70 soldados portugueses e por centenas de indígenas leais. Apesar da tentativa de romper o bloqueio, entre Setembro e Outubro de 1697, pelas fragatas portuguesas Santo António de Tanna e Nossa Senhora do Vale, o cerco dura até o ataque decisivo em 13 de Dezembro de 1698, enquanto a guarnição é reduzida a um capitão, nove soldados e um padre. Em 20 de Dezembro seguinte, uma frota portuguesa chega à costa de Mombaça mas já é tarde demais. Com a conquista do forte, todo o litoral de Zanguebar (ou seja, o litoral suaíli que vai do Sul da Somália até o Norte do Moçambique atual) cai sob a dominação dos sultãos de Omã.
Graças a uma revolta das tropas africanas contra a nova autoridade, o Sultão de Paté (na ilha de Lamu, no atual Quénia) devolve novamente o forte aos Portugueses em 16 de Março de 1728. Logo no ano a seguir, em 1729, uma revolta dos habitantes de Mombaça contra os Portugueses conduz a um novo cerco no mês de Abril, forçando a rendição da guarnição em 26 de Novembro. Entre 1741 e 1837, Mombaça constitui uma cidade-Estado autónoma, e depois volta sob a dominação do Sultão de Zanzibar, até a chegada da Companhia Imperial Britânica da África Oriental no final do século XIX. Os Britânicos tomam posse do forte em 1 de Julho de 1895 e o transformam em prisão até 1935. Em 1958, ele torna-se um parque nacional, e depois um museu acessível ao público em 1962 gerido pelos Museus nacionais do Quénia. Desde o 12 de Dezembro de 1963, o Quénia tornou-se independente e o museu continua gerido pelos Museus nacionais do Quénia, tornados instituição pública queniana.
O Forte Jesus, em Mombaça (Quénia).
Objeto estratégico da dominação regional: o comércio dos escravos, motor económico e drama humano plurissecular
Se o controlo dos mares e de Mombaça fosse necessário para a dominação comercial entre a Ásia, a África e a Europa. é um comércio em particular que alimenta a motivação dos uns e dos outros na região, e que merece um foco, pelo seu tamanho e a sua especificidade: o comércio dos escravos. Entre os séculos VII e XIX, os comerciantes árabes e suaílis raptaram cerca de quatro milhões de homens, mulheres e crianças na África Oriental, que eles venderam como empregados domésticos no Médio-Oriente ou para trabalhar nas plantações das províncias costeiras da África sob dominação árabe. Na velha cidade de Mombaça, os motivos de correntes esculpidos nas portas das casas indicam que os seus proprietários praticavam este comércio.
Inicialmente, os escravos vinham de trocas com comunidades e aldeias do interior. A medida que esta « indústria » desenvolveu-se, as caravanas penetraram no interior da África para saquear o marfim e raptar dezenas de milhares de homens, mulheres e crianças. Menos de um raptado sobre cinco sobreviveu à marcha forçada até o litoral. Se certas escravas casaram-se com o seu proprietário e tornaram-se livres, a muito grande maioria delas e deles conhecerem uma realidade muito mais cruel. Milhares de meninos e jovens homens foram castrados para servir nas casas árabes, e estima-se que 2,5 milhões de meninas e jovens mulheres foram vendidas como concubinas. O comércio terminou na década de 1870, mas continuou ilegalmente até a década de 1960 e a abolição da escravatura no Sultanato de Omã (em 1970).
No que diz respeito ao tráfico de escravos realizado em benefício das potências europeias, o circuito da escravatura passava pelo Sahara, o mar Vermelho, o Atlântico e a costa da África Oriental. Entre o início do século XVI e o fim do século XIX, estima-se a 18 milhões de Africanos vítimas de tráfico; dois milhões eram originários do Leste do continente. No auge deste trânsito, no século XVIII, nenhuma região foi esquecida. Na África Oriental, mais ou menos 50 000 escravos eram cada ano o objeto de um comércio. No total, quase 600 000 escravos transitaram, apenas pelo mercado de Zanzibar entre 1830 e 1873, quando um tratado assinado com a Grã-Bretanha acabou com esta prática sinistra. Se a escravatura já existia em África antes da colonização europeia, esta última transformou-a em verdadeiro comércio, numa escala sem igual no passado. O seu impacto económico, social e psicológico mudou para sempre o destino da África.
A dominação britânica no seguimento da abolição do tráfico de escravos
Desde a sua penetração na região no século XVI, como vimos, o domínio dos Portugueses nunca foi aceitado pelos Suaílis sem resistência. Além dos pedidos de ajuda aos Omaneses, revoltaram-se várias vezes durante os séculos XVI e XVII. Depois, os sultãos de Omã também não foram muito mais aceitados pelos habitantes, os quais confiaram Mombaça aos Britânicos entre 1824 e 1826. Uma certa tranquilidade só ocorreu quando Said ibn Sultão mudou a sua capital de Muscat (Mascate, em Omã) para Zanzibar em 1832.
Contudo, uma evolução económica estrutural marcou a região na época e facilitou a dominação britânica: as plantações de cravo estabelecidas na costa pelo sultão criaram uma necessidade de mão-de-obra, coberta essencialmente pela... importação de escravos. No século XIX, as caravanas de escravos marcam portanto o auge do tráfico de seres humanos. Combinando a habilidade política e a ameaça, os Britânicos pressionaram o filho de Said ibn Sultão, Bargach ibn Said, a priobir o comércio dos escravos. Isso inaugurou o fim da dominação árabe no litoral. O tratado de abolição previa que a Companhia britânica de África Oriental administra o interior do país, o que lhe permitiu construir a linha ferroviária de África Oriental. Os Britânicos reconhecerem uma faixa litoral de 16 km de largura como território do sultão e arrendaram a ele a partir de 1887. Mombaça tornou-se depois a cabeça da linha ferroviária ugandesa e a principal cidade de África Oriental britânica. Em 1920, quando o Quênia tornou-se inteiramente uma colónia britânica, foi proclamada capital do protectorado britânico costeiro. O último sultão de Zanzibar a « restituou » às autoridades quénianas na altura da independência, em 1963. A partir dai, a política recentrou-se no interior das terras, Mombaça, primeira cidade da costa e segunda do país, foi deixada de lado e caiu pouco a pouco no torpor.
Na parte antiga da cidade de Mombaça, no Quénia.
Mombaça e o litoral, sempre numa tradição e numa cultura de resistência
Desde a independência, Mombaça (e todo o litoral queniano em geral) constituiu um lugar de resistência ao poder imposto « do exterior » (hoje em dia, o governo de Nairobi). As últimas eleições gerais ainda o ilutraram (Quénia: que futuro e que desafios após a eleição presidencial de 2022?), tal como a agitação regularmente observada, às vezes num contexto de comunitarismo religioso). Assim, em 2013, o movimento não autorizado, separatista, de Mombaça, o Mombasa Republican Council (Conselho Republicano de Mombaça ou MRC), a origem do slogan Pwani si Kenya (« O litoral não é o Quénia »), chamou os eleitores a boicotar a eleição presidencial, evocando entre outras razões problemas de reforma agrária e marginalização económica. Ao longo dos anos, vários dos seus membros foram presos. O MRC continua, no entanto, as suas atividades.
As tensões em Mombaça aumentaram em Outubro de 2013, quando o sheikh Ibrahim Rogo, um pregador muçulmano, foi baleado e morreu na cidade. Os seus apoiantes disseram que as forças de segurança quenianas estavam envolvidas no seu assassinato. Um outro religioso, o sheikh Abubakar Shariff Ahmed, foi matado em circonsctâncias semelhantes em Abril de 2014. A tensão voltou em Agosto de 2017, nas semanas que antecederam as eleições gerais cujos resultados iam a ser contestados, porém a violência na cidade ficou limitada. Em 2022, apesar de novas suspições de fraudes, poucas violências foram constatadas. Desejamos que no futuro, o apelido suaíli da cidade de Mombaça, Kisiwa Cha Mvita (« a ilha da guerra »), que evocamos em introdução, não precisa achar a sua justificação na atualidade, para que os direitos e as especificidades identitárias do litoral queniano sejam respeitados.
* * *
A passagem seguinte é extrato da obra O Desertor, do autor tanzaniano Abdulrazak Gurnah (Prémio Nobel da Literatura 2021). Nesta cena, que toma lugar em algum lugar da Africa de Leste, Frederick Tuner explica a Pearce, o seu concidadão inglês, o contexto da colonização britânica em curso entre o Uganda e a costa.
Frederick bebia tranquilamente, fumando o seu charuto no silêncio ambiente, e quando Pearce soltou um pequeno grunhido, ele achou que era encorajado a continuar. « A cidade foi mais ou menos abandonada durante um século após a construção de Forte Jesus pelos Portugueses e a sua transferência de tudo para Mombaça. Era, da sua parte, mostrar bem pouco gratidão, quando pensamos bem. E depois, há cerco de quarento anos, o sultão Majid de Zanzibar teve a ideia brilhante de trazer a cidade de volta à vida, transformando-a numa colónia de plantação. Em teoria, ele reinava naturalmente em mestre sobre toda esta costa. É assim que ele enviou lá os seus Árabes e uma tropa de mercenários balúchis, junto a um milhare de escravos. As colheitas foram excelentes durante uns dez anos, então novos escravos foram lá enviados em reforço, e as pessoas daqui começaram a vasculhar as áreas vizinhas para ganhar outros. A cidade tornou-se próspera, imensas fortunas foram constituidas. Os Bohras vieram fazer negócio, e você sabe o que eu sempre digo: se um comerciante indiano instala-se num lugar, pode ter a certeza que lá tem dinheiro para ganhar. A presença dos Indianos é antiga, eles já estavam aqui antes que os Portugueses viessam a plantar a sua cruz. Chegamos a dizer que o piloto que Vasco de Gama embarcou aqui para atingir Calecute era um marinheiro indiano. Estou disposto a acredita-lo – ou mais provavelmente que era um escravo indiano. Pois tudo passava então pelos escravos, e até os escravos possuíam escravos.
É nesses anos que a companhia oficializou os seus estatutos e que ela começou a trabalhar. É facil para todos, dizerem hoje que ela não tinha nenhuma chance, mas eu imagino que, então, não tinha esse caráter de evidência para McKinnon e os seus companheiros. Provavelmente não, pelo menos, para o sultão de Zanzibar. Eu não acredito que o sujtão foi Majid naquela altura, até tenho a certeza disso. Talvez foi Barghash, ou mais provavelmente aquele que o sucedeu, o demente Mahound, ou não sei bem. Em todo o caso, qualquer que foi o seu nome, o sultão quis aproveitar os métodos de trabalho e de saber-fazer dos Britânicos, e ele pediu à companhia – ou alguém fez o pedido para ele – de enviar um dos seus dirigentes gerir localmente as plantações. Foi um grave erro. A companhia mandou um certo Tinkle-Smith, um nome desse género, que imediatamente libertou os escravos e propôs de reempregar quem quisesse tomar um trabalho remunerado. Ele estabeleceu o preço da liberdade e ofereceu pagar esse valor a cada escravo que aceitaria travalhar para a companhia. Portanto, os escravos desertaram todas as plantações, e a maioria fugiu, não queriam mais trabalhar. Partiram para o interior e tiraram licença em vez de aceitar o trabalho remunerado que a companhia les oferecia. Nessa altura, até os escravos sabiam, logo na altura da assinatura do acordo germano-britânico delimitando as áreas de influência, que a soberania territorial do sultão não ia além de uns quinze kilómetros no interior do país. Era portanto preciso percorrer apenas esses quinze kilómetros para para encontrar-se em segurança. Resultado, os Árabes empobrecerem-se. Foi há apenas uns anos, oito ou nove anos, mas hoje podemos ver plantações desertas em quase todos os lugares. Contudo, os fugitivos estão a regressar gradualmente, e nós os instalamos nas terras árabes abandonadas, não muito longe da cidade, em direção ao Sul. Isso semeou a discórdia, mas os Árabes só puderam resmungar e fugir para Mombaça. E então tudo isto terminou rapidamente, logo com a proclamação do Protetorado em 95. […] »
Abdulrazak Gurnah, O Desertor (2005).
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