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O acendedor de lampiões

África, assunto desconhecido da Guerra Fria

2 Octobre 2026 , Rédigé par Jorge Brites Publié dans #África, #História

Caricatura da luta Leste-Oeste (Daily Mail, 1962).

É bastante marcante constatar que a Guerra fria é bastante descrito pelos seus teatros europeus, asiáticos e americanos: a cortina de ferro, a crise de Berlim ou ainda a repressão de Praga na Europa; as guerras do Vietnã ou de Coreia, ou a Revolução cultural em China para a Ásia; a revolução cubana, o golpe contra Salvador Allende ou a crise dos mísseis na América... O continento africano é muitas vezes esquecido ou negligenciado na memória desse período, com excepção a crise do canal de Suez em 1956 mais ligada às problemáticas próxima-orientais, e também porque ela envolveu atores exteriores como a França, o Reino-Unido e Israel. Difícil no entanto imaginar que os países africanos permanecerem neutros na Guerra fria, momento de fortes tensões geopolíticas que marcou quase toda a segunda metade do século XX, entre de um lado os Estados-Unidos e os seus aliados constitutivos do bloco de Loeste, caracterizado por essencial por economias liberais e o multipartidarismo, e de outro lado a URSS e os seus aliados formando o bloco de Leste, a maioria do tempo caracterizado por economias planificadas e regimes de partido único.

A maioria dos Estados africanos recentemente tornados independentes, quase todos na década de 1960 no que tem a ver com as antigas colónias francesas, inglesas e bélgas, parecem primeiro procurar adoptar uma forma de não-envolvimento no confronto Leste-Loeste. Na conferência do movimento dos Não-alinhados no Cairo em 1964, conta-se dezoito Estados africanos a mais do que em 1961 em Belgrado, na Iugoslávia. Em 1970 em Lusaka, na Zâmbia, ainda sete Estados africanos acrescentam-se. Na cimeira de Argel de Setembro de 1973, são presentes a Organização da unidade africana (OUA), 34 países subsaarianos, os seis países árabes da África do Norte, e ainda diversos movimentos de libertação – relacionados das colónias portuguesas, de Djibouti e de África do Sul. Os anos 1970 constituem no entanto uma mudança e vêem a URSS e os seus aliados, na base do discurso anti-imperialismo que caracteriza o pensamento socialista, trazer apoios concretos e desenvolver cooperações e alianças com diversos atores do continente africano. A África torna-se então um assunto da Guerra fria e um dado essencial na política soviética – dados os seus recursos naturais e a sua posição estratégica pelas economias ocidentais. A URSS experimentou lá uma nova estratégia, que consistiu a enviar muitas armas e financiamentos aos seus partesãos, mas também a basear-se nos combatantes aliados (em particular cubanos) para consolidar a sua dominação. Essa estratégia derivou então numa doutrina elaborada logo em 1964, segundo a qual nos Estados sem proletariado industrial podem existir democracias revolucionárias apoiando-se nas classes intermediárias, ou até nos militares.

A independância de muitos das antigas colónias francesas, bélgas e britânicas na década de 1960 mudou a situação do continento africano. E a persistência de lutas anti-coloniais constituiu também uma sorte para a URSS que assumiu a carta do anti-colonialismo e do anti-imperialismo. A África não devia ficar guardada pelos únicos Ocidentais. Moscou apoiava-se na intervenção de alguns dos seus aliados, antes de tudo Cuba, e ainda a República democrática alemã (RDA) que ocupava-se sobretudo de comércio, de apoio técnico e de acolhimento de estudantes africanos (« Madgermanes »: em Moçambique, a injustiça do tratamento dos retornados da Alemanha de Leste).

Em Bissau, o monumento Mon de Timba (« O Punho do Caloteiro » em português), escultura alegórica comemorativo do massacre de Pidjiguiti. Em 3 de Agosto de 1959, a repressão de uma greve de estivadores fez dezenas de mortos e uma centena de feridos, no porto de Pidjiguiti, em Bissau. Esse crime constituiu um momento chave na dimensão revolucionária da reflexão dos nacionalistas bissau-guineenses, conduzidos por Amílcar Cabral. Após ter instalado o seu quartel geral em Conakry em 1960, os mesmos lançaram a guerra de independência, a partir de 1963, com o apoio do bloco de Leste. Esse tipo de monumento faz parte integrante da paisagem urbano nas ex-colônias portuguesas, onde guerra pela independência e revolução socialista confundem-se na narração nacional contemporânea.

Em Bissau, o monumento Mon de Timba (« O Punho do Caloteiro » em português), escultura alegórica comemorativo do massacre de Pidjiguiti. Em 3 de Agosto de 1959, a repressão de uma greve de estivadores fez dezenas de mortos e uma centena de feridos, no porto de Pidjiguiti, em Bissau. Esse crime constituiu um momento chave na dimensão revolucionária da reflexão dos nacionalistas bissau-guineenses, conduzidos por Amílcar Cabral. Após ter instalado o seu quartel geral em Conakry em 1960, os mesmos lançaram a guerra de independência, a partir de 1963, com o apoio do bloco de Leste. Esse tipo de monumento faz parte integrante da paisagem urbano nas ex-colônias portuguesas, onde guerra pela independência e revolução socialista confundem-se na narração nacional contemporânea.

Memorial em Cuamba, no norte de Moçambique.

A URSS e Cuba na África

Desde o surgimento da Revolução em 1959, Cuba fez da solidariedade com os povos em luta pela sua emancipação um pilar da sua política estrangeira. Muito cedo, apesar da hostilidade dos Estados-Unidos de América e as muitas dificuldades internas ligadas ao processo de transformação social, Fidel Castro converteu Cuba numa terra de asílio para todos os grupos revolucionários e movimentos de libertação nacional de América latina, de África e de Ásia. Cuba teve um papel capital nos diferentes processos de libertação na África, oferecendo ajuda e recursos. Em trinte anos, quase um meio-milhão de Cubanos, mulheres e homens, soldados, engenheiros ou médicos, participaram às guerras anti-coloniais na África. Cuba não só formou quadros africanos, mas sobretudo enviou tropas e conselheiros técnicos na Argélia, na República democrática do Congo, na Etiópia, em Angola e no Moçambique, graças ao apoio logístico da URSS.

O caso da Angola é mais complexo. Contamos lá uns três movimentos principais de libertação: a Frente nacional de libertação de Angola (FNLA), o qual controlava o norte do país; a União nacional para a independência total de Angola (UNITA), que lutava no sul e era acusado por ser apoiado pelo regime sul-africano; e o Movimento popular de libertação de Angola (MPLA), de inspiração marxista-leninista. Cada um desses movimentos proclamou a independência de forma separada em 1975. A intervenção de massa das forças cubanas e a inação dos Estados-Unidos, imposta por um Congresso americano ainda traumatizado pela experiência da guerra do Vietnã (e apesar da vontade de Henry Kissinger, então secretário de Estado americano), asseguraram a vitória do MNLA que revendicava-se da ideologia marxista logo em 1976. A UNITA retomou então rapidamente a luta sob forma de guerrilha. O caso de Angola tem isso de particular que foi a primeira vez que o Congresso americano bloqueou uma ajuda exteriora no âmbito da Guerra fria, e que a URSS interveu tão longe do seu território.

No entanto esse desequilíbrio não foi isolado, como o monstrou o caso da Etiópia, onde Cuba implantou-se militariamente em 1977, no contexto chegando da guerra do Odagen (1977-1978) com a Somália. A Etiópia era submetida ao regime de militares do Derg, uma organização marxista-leninista que tinha provocado a queda do velho imperador Hailé Selassié Ieiro em 1974. Cuba enviou lá finalmente aviões e quase 15 000 homens. O regime da Somália revindicava-se também da ideologia socialista, sob o reinado do general Mohamed Siad Barre desde 1969, mas a divergência demográfica, entre os vinte e oito milhões de habitantes da Etiópia e os três milhões da Somália, deu naturalmente a preferência de Moscou e de La Havane do lado de Addis-Abeba. Uma posição bastante paradoxal quando sabe-se que o coronel Mengistu Hailé Mariam, chefe do Estado etiópio entre 1977 e 1991, de fato não conhecia grande coisa do marxismo-leninismo ao qual ligou-se por oportunismo político – ao contrário dos secessionistas erítreus que eram dotrinários fiéus e guerilheros notáveis, e que o regime militar reprimiu com o apoio dos seus aliados socialistas.

Outros destacamentos aliando soviéticos e cubanos instalaram-se no Moçambique, na Tanzânia, no Congo, na Sierra Leone. O escadrão soviética no Atlântico usou a partir de 1977 o porte angolano de Luanda. Os revolucionários angolanos intervirem eles mesmos fora das suas fronteiras, em particular no sul do Zaire em 1977 e em 1978, na província de Shaba. Signo do interesso levado ao continento africano, o chefe do Estado soviético Nikolai Podgorny (1965-1977) fez uma disgressão no mês de Março de 1977, e o próprio Fidel Castro visitou a Líbia, a Somália, a Etiópia, o Moçambique e a Angola. No XXVI° Congresso do Partido comunista da URSS em 1981, um relatório pedido por Leonid Brejnev, secretário geral do Partido (1964-1982), identificava a Angola, o Moçambique e a Etiópia, que se reclamavam do marxismo-leninismo, como países com orientação socialista.

Memorial da luta anticolonial e revolucionária, em Pemba, no norte de Moçambique. Em baixo, o monumento Tiglachin (em português: « Nossa luta »), erguido em 1984 em memória aos soldados etíopes e cubanos que participaram da guerra de Ogaden.
Memorial da luta anticolonial e revolucionária, em Pemba, no norte de Moçambique. Em baixo, o monumento Tiglachin (em português: « Nossa luta »), erguido em 1984 em memória aos soldados etíopes e cubanos que participaram da guerra de Ogaden.

Memorial da luta anticolonial e revolucionária, em Pemba, no norte de Moçambique. Em baixo, o monumento Tiglachin (em português: « Nossa luta »), erguido em 1984 em memória aos soldados etíopes e cubanos que participaram da guerra de Ogaden.

Monumento Tiglachin. (© Caroline Raes)

É preciso no entanto relativizar o confronto global que representou a Guerra fria no continento africano: bem verdade que muitos países desenvolveram laços importantes, cooperações técnicas, universitárias ou militares com Moscou e La Havane, contudo a presença soviética ou cubana limitou-se a alguns países, em primeiro lugar a Angola, a Etiópia e o Moçambique. No terreno econômico, 40% do comércio soviético na África negra fazia-se com esses três países que continuavam no entanto, em particular o Moçambique, a trocar com os países ocidentais. No final da década de 1970, a Etiópia, vítima de uma seca terrível que esfomeou centenas de milhares de pessoas, só pude constatar que uma ajuda soviética considerável em armas e bem inútil no plano econômico e social.

A URSS, assegurando-se uma influência preponderante na Etiópia, tentou tirar as lições do fracasso de outras experiências africanas: o Egípto de Anouar el-Sadate (1970-1981), o Mali de Modibo Keita (1960-1980), o Sudão de Gaafar Muhammad Nimeiri (1969-1985) ou ainda a Guiné de Sekou Touré (1958-1984). Ela constatava também a fragilidade dos seus laços com outros Estados com orientação ou tendência socialista, como o Benim, a República do Congo ou Madagascar, que não seguiam sistematicamente os votos de Moscou ou de La Havane à Assembleia geral das Nações Unidas.

A posição dos Estados-Unidos na década de 1970 é complexa, dada a oposição entre o intervencionismo desejado por Henry Kissinger e a indiferença globalmente levada pelos Americanos em relação ao continento africano, que eles desconhecem. Foi necessário esperar os anos 1980 e a era Reagan (1981-1989) para ver Washington adoptar uma política global ativa na África, no plano econômico essencialmente. Os Americanos encorajaram uma evolução do regime das liberdades (no caso do apartheid na África do Sul), ou ainda a independência da Namíbia, ocupada por 100 000 soldados sul-africanos. Além disso, eles favorecerem ao longo da década de 1980 a intervenção cada vez mais frequente do Fundo Monetário International (FMI), oficialmente para apoiar o desenvolvimento do continento, na realidade para implementar lá « programas de ajustamento estrutural » com objetivos o enfracacimento e a retirada dos Estados na economia e a desregulação e a abertura dos mercados africanos – ao benefício dos interesses privados ocidentais.

Em 1980, Cuba permanece a primeira potência estrangeira no continento. O quarto do seu exército está então presente lá. Na Primavera de 1978, os Americanos estimavam que estavam em África uns 40 000 Cubanos: 25 000 pessoas em Angola, entre os quais entre 10 e 20 000 soldados; entre 16 e 17 000 na Etiópia; 800 no Moçambique; entre 100 e 300 na Tanzânia. Entre 1975 e 1984, os Cubanos teriam perdido na África umas 15 000 pessoas, aos quais podemos acrescentar uns 35 000 feridos.

O papel de Cuba naquele período é mais complexo do que a realidade que tentaram descrever muito tempo os Ocidentais, para quem La Havane agia em simples mercenário de Moscou. Parece por exemplo que a intervenção de Angola fez-se sobre iniciativa dos próprios Cubanos, enquanto a participação à guerra do Ogaden teria sido inspirada pela União soviética. De fato, Cuba era dependente da URSS em muitos aspetos logísticos, mas o próprio fato da sua presença no nolo africano, para a conta do campo socialista, dava uma aura e uma margem de autonomia política ao regime castrista, em relação a Moscou. Em 1966, Fidel Castro declarava que « o povo entendia os seus deveres, pois ele sabia que ele só tinha um inimigo, o que nos ataca nas nossas costas e nas nossas terras. E é o mesmo que ataca os outros. Por isso proclamamos que, em todo lugar, os movimentos revolucionários poderão contar nos combatantes cubanos. »

A África tornou-se um dos sítios de confrontação Leste-Loeste, mas mais amplamante também Norte-Sul. De uma certa forma, ela releva também de um novo tipo de socialismo onde o terço mundo substitui o proletariado como ator principal da revolução frente ao imperialismo.

Outras questões: identitárias e políticas, econômicas e humanitárias

Mais do que a questão da Guerra fria, é a persistência de regimes coloniais nos territórios ocupados pelo Portugal e a Espanha, como também pela África do Sul, na Namíbia e na Rodésia, que concentra a atenção na década de 1970. As guerras de descolonização na Angola e no Moçambique, onde vivem respetivamente 250 000 e 130 000 colonos portugueses, e ainda na Guiné-Bissau, duram então desde anos e eternizam-se. No Saara ocidental, 80 000 soldados espanhóis ocupam a costa, que eles só deixam em 1975-1976 à favor de uma invasão coordenada do território pela Mauritânia e Marrocos, que decidiram uma partilha do território sem concertação com a população sarauí. A Frente Polisario, que conta então uns 10 000 homens e que proclamou a independência da República árabe sarauí democrática em 1975, entra logo em conflito com as forças ocupantes, com o apoio da Argélia. Em 1978, após um golpe de Estado militar, a Mauritânia retira-se, aruinada pela guerra, deixando Marrocos continuar a anexão de todo o território. Longe da Guerra fria e da clivagem ideológica, são antes de tudo questões políticas e grandes interesses econômicos – ligados aos recursos mineiros – que entram em conta.

Na África austral, os anos 1970 vêem um endurecimento da posição da comunidade internacional em relação ao regime sul-africano de apartheid. O Tribunal internacional de Justiça constata em 1971 a ilegalidade da presença sul-africana na Namíbia. As colónias portuguesas acedem à independência em 1974-1975, enquanto a Rodésia vizinha conhece uma crise econômica ligada à conjuntura mundial e à crise do petróleo de 1973. Em 1974, o presidente sul-africano Vorster resforça a implementação de um dispositivo racista cujos princípios eram explicitamente inspirados das teorias nazistas. O Partido nacional, no poder desde 1948 e que implementou o sistema legislativo do apartheid, legifera praticando uma política de exclusão, incluindo o passaporte interior, a segregação, ou ainda a proibição dos casamentos mistos.

Na década de 1970, a resistência índia e negra radicaliza-se, inspirando-se das obras de Frantz Fanon (1925-1961), um dos fundadores da reflexão terça-mundista e descolonial, e mais ainda escritos e ações dos Black Panthers nos Estados-Unidos. A ideia de uma resistência pelas armas cresce, pois à política de não violência encurajada pela Igreja, o governo sul-africano respondia pela repressão – os massacres de Soweto em 1976 constituindo um dos episódios os mais dramáticos daquela sequência histórica. Em paralele, observa-se uma lenta evolução do lado dos sindicados de trabalhadores, muito potentes, nas mãos dos Brancos, muito tempo anti-negros, num sentido mais conformo ao espírito de defensa dos trabalhadores e dos oprimidos em geral. Em Agosto de 1976, a Cimeira dos Não-alinhados em Colombo, no Sri Lanka, que reune 82 países, condena explicitamente a África do Sul. É precisamente o ano em que Henry Kissinger, nos Estados-Unidos, inicia uma diplomacia « global » que questiona a « relaxação » com os regimes segregacionistas na África iniciada em 1969. Washington exige portanto da África do Sul de acabar com o seu apoio à UNITA, o movimento contra-revolucionário angolano, e de pressionar a Rodésia para abrandar o regime. Segue-se a condenação do apartheid pelas Nações Unidas, onde a África do Sul é excluida em 1974. Em 29 de Setembro de 1978, a resolução 435 da ONU prevê a simples independência da Namíbia.

As heranças da cooperação entre países do Bloco socialista ainda são visíveis em Guiné-Bissau. Aqui na cidade de Gabú, na parte oriental do país.

As heranças da cooperação entre países do Bloco socialista ainda são visíveis em Guiné-Bissau. Aqui na cidade de Gabú, na parte oriental do país.

Um outro desafio importante impõe-se após as independências da década de 1960, frente ao risco de fragmentação ligado aos particularismos locais e à prevalência das identidades tribais e étnicas: o da coesão dos novos Estados. Os líderes políticos africanos tentam assim de promover a unidade nacional a cerca das fronteiras herdadas da colonização, como Leopold Sedar Senghor no Senegal, Sekou Toure na Guiné ou Samora Machel no Moçambique, mas o desafio é grande. Sylvanus Olympio, primeiro presidente da República do Togo (1958-1963), reconhecia que os novos Estados artificiais deviam trabalhar a tornar-se nações. Desde 1958 até exprimia-se a ideia de « Estados-Unidos de África », cujas tentativas diversas foram fracassos na década seguinte – com excepção talvez a Organização da unidade africana criada em 1963, que, certamente, não permitiu avançar no sentido federalisto, mas que afirmou-se como uma força política em si (durante a sua mediação entre Marrocos e a Argélia, na sua luta contra o regime segregacionista de Rodésia do Sul, no seu apoio à integridade do Zaire e da Nigéria, etc.).

Temos portanto uma intersecção de desafios, de questões. Não só as duas superpotências, os Estados-Unidos e a URSS, procuraram assumir lá uma certa influência, como também os antigos colonizadores – o que ilustraram crises como a intervenção franco-britânica no canal de Suez em 1956, ou ainda as condiçéoes políticas que conduziram à queda de Patrice Lumumba no Congo-Kinshasa em 1960-1961 ou à queda de Thomas Sankara em 1987. Mas acrescentaram-se outros atores e parceiros (inclusive africanos): Cuba, a Igreja católica, a Líbia do coronel Kadafi, a África do Sul do apartheid, etc. Até Israel, motivado pela solidaridade existante entre os movimentos de libertação sul-africano e palestiniano, revelou-se um ator importante na luta anticomunista no continento, e notavelmente um apoio indefectível do regime de apartheid.

A essas questões acrescentam-se, claro, desafios econômicos ligados ao controlo dos recursos. Países líderes de Não-alinhados como a Líbia e a Argélia tornaram-se os atores os mais extremistas da Organização dos países exportadores de petróleo (OPEP), criada em 1960, na qual eles aopiaram a subida brutal dos preços do barril que provocou o primeiro choque do petróleo em 1973. Os separatismos que conheceu o continento, como o conflito do Katanga (1960-1963) ou a guerra do Biafra (1967-1970) explicam-se tanto com as lutas identitárias como com a vontade de uns e outros (URSS e Estados-Unidos incluidos) de controlar o acesso às riquezas naturais. No Sahel, a extensão inexorável das áreas de séca provoca, na década de 1970, movimentos de população, tensões e novos conflitos, longe, muito longe das considerações ideológicas que caracterizam – pelo menos em teoria – a Guerra fria. Outros países da África, em particular em África francófona, tiveram muito mais trabalho para sair da influência da antiga potência colonial (a famosa « Françáfrica ») do que da das duas superpotências que foram a URSS e os Estados-Unidos. O Exemplo de Thomas Sankara, militar levador de uma ideologia socialista e anti-imperialista, que liderou o Burkina Faso a partir de 1983 antes de ser vítimo de um golpe apoiado pela França, é o mais ilustrativo de todos.

De forma global, pode-se constatar que o papel persistente de atores exteriores (interessados) na política africana participou provavelmente à multiplicação das crises e à estagnação econômica desse continento, considerado pelas grandes potências como um tabuleiro de xadrez, onde colocar os seus piões. Até hoje, ainda mais com a chegada de novas potências na região (em primeiro lugar a China, mas também a Turquia, a Índia, Marrocos, etc.), certos Estados africanos devem contar (e lidar) com essa herança dolorosa para encontrar um caminho de desenvolvimento autónomo e sustentável.

Inscrições nas ruas de Maputo (Moçambique), heranças do período socialista.

Inscrições nas ruas de Maputo (Moçambique), heranças do período socialista.

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