De uma guerra mundial à outra: crónica de uma mobilização belicista, e de uma desmobilização cultural que permitiu a paz na Europa
Em 8 de Maio passado, foi celebrado o 80° aniversário da capitulação alemã, após a Segunda Guerra mundial que viu toda a Europa, a África do Norte, a Ásia oriental e do Suleste, e até os arquipélagos oceanianos do Pacífico, envolvidas numa guerra total. Uma guerra total, iniciada na década de 1930, que fez entre cinquenta e sessenta milhões de vítimas imediates e modificou os equilíbrios mundiais para décadas. O dia a seguir, em 9 de Maio, houve na indiferença mais ou menos geral a comemoração dos 70 anos da « Declaração Schuman », considerada como o texto fundador da construção europeia. Este discurso, pronunciado em 9 de Maio de 1950 por Robert Schuman, então ministro francês dos Negócios estrangeiros, chamava notavelmente à criação de uma organização europeia encarregada de por em comum as produções francesa e alemã de carvão e de aço – indispensáveis à indústria militar.
Costuma-se apresentar a construção europeia como um elemento pacificador e estabilizador, como um evidência que não necessita ser justificada nem entretida, que teria preservado naturalmente a Europa de conhecer de novo a guerra. Mas seria ignorar que a violência e a guerra que acabaram no continente europeu em 8 de Maio de 1945, não eram fenômenos isolados, mas resultavam de uma dinâmica que que podemos datar pelo menos há Primeira Guerra mundial. Escolhemos após este 8 de Maio, de questionar o papel respetivo das duas guerras mundiais e das suas continuações na mobilização e na desmobilização culturais e no antagonismo ou a pacificação entre as sociedades europeias no século XX. Para isto, uma análisa cronológica (não exaustiva) das dinâmicas da altura é necessária, ou seja, a Grande Guerra e o seu efeito brutalizante sobre as sociedades europeias (em particular as sociedades vencidas), o período entreguerras e as tentativas de pacificação e de desmobilização cultural, a Segunda Guerra mundial e a pacificação que resultou do maior conflito da História e dos genocídios que o acompanharam.
Quando o historiador britânico Eric J. Hobsbawn tenta dividir o século XX, ele o partilha em três, a primeira parte sendo a entre 1914 e 1945 (que ele chama a « guerra de 31 anos », ou a « era das catástrofas »). Das 10 a 18 milhões de vítimas da Grande Guerra, aos 40 milhões de vítimas europeias da Segunda Guerra mundial, passando pelas guerras civis russa e espanhol e pelas muitas epidemias e escassez resultando da Primeira Guerra mundial, a primeira metade do século só parece, obviamente, ligar à Europa as noções de conflito e de morte. Mas porqué falar de « guerra de 31 anos », enquanto as duas guerras mundiais são de fato muito diferentes e claramento distintas no tempo? Muitas explicações. Primeiramente, porque as guerras mundiais são antes de tudo guerras europeias. As vítimas são em grande maioria europeias. E até a principal potência asiática envolvida no segundo conflito, o Japão, já o era no primeiro, do lado dos Aliados. Além disso, usar desta expressão permite induzir uma forma de continuidade entre os vários conflitos cronologicamente pertas ou paraleles às guerras mundiais, por exemplo a guerra civil russa (1917-1923) e a guerra kemalista de independência turca (1919-1922), logo após a Grande Guerra, ou ainda a guerra civil espanhol (1936-1939), e a anexão da Áustria e da Chequia (em 1938-1939), logo antes de Segunda Guerra mundial.
Em segundo lugar, porque a Segunda Guerra mundial resulta muito amplamente das frustrações e dos problemas não resolvidos com o fim da Primeira Guerra mundial. Aliás, Hobsbawn nos diz que « a Primeira Guerra mundial não resolveu nada », enquanto « a Segunda Guerra mundial produz soluções durante algumas décadas ». Se podemos portanto considerar a Grande Guerra como o ponto inicial de uma dinâmica, temos que constatar que ela teve como efeito essencial acostumar a Europa a uma violência total, a uma cultura da violência que prolonga-se durante o período entreguerras.
O efeito brutalizante da Grande Guerra
A violência e a duração da Grande Guerra tiveram obviamente um efeito muito forte nas mentas da altura. A palavra brutalização foi usada por George Mosse (1918-1999), historiador norte-americano de origem alemã – uma retomada da palavra inglesa que designa uma dinâmica ativa consistando a tornar brutal. Além da violência dos combates, constata-se uma dinâmica « abrangente » da violência sobre as sociedades europeias. A guerra foi total, no sentido em que mobilizou todas as energias, todos os aspetos, todos os setores, todas as forças dos países envolvidos. Diretamente ou indiretamente, todo o mundo era implicado pela conclusão dos combates. O historiador Hobsbawn até nos explica que, a Grande Guerra tendo mobilizado os povos, trata-se de uma « guerra democrática » (com uma implicação de todos, inclusive das mulheres) que vê uma rejeição dos valores humanistas e racionalistas, com uma diabolização do inimigo, uma desumanização do outro que não temos remorsos em matar.
A participação das mulheres é ilustrativa desta « guerra democrática »: já antes da guerra, as mulheres trabalham e representam entre o terço e 40% da população ativa. Mas o que muda, é ver as mulheres em setores muito masculinos e pouco qualificados (a metalurgia, a indústria das armas, etc.), em particular na França e no Reino-Unido. Os homens pouco ou não qualificados sendo os primeiros a ser enviados na frente, pois considera-se os trabalhadores qualificados como mais « preciosos » e mais dificilmente substituíveis, é naturalmente nas empregos manuais requerendo bastante pouco competências que as mulheres são colocadas ao trabalho para compensar a falta de mão de obra.
O efeito brutalizante da Grande Guerra explica-se também pelo papel essencial da tecnologia, da gestão e da burocracia, que a tornaram uma guerra impessoal, uma guerra industrial, facilitando os massacres. A racionalidade e a estandardização são colocadas ao serviço da guerra e da morte, numa preocupação óbvia de eficiência. É também o fato de colocar a inovação e a criatividade ao serviço da guerra: várias novas tecnologias aparecem ou se desenvolvem ao longo dos combates (os gás, os tanques, a aviação, etc.), embora, apesar dessas novas tecnologias, a infantaria permanece, durante a Primeira Guerra mundial, o coração da estratégia militar dos dois lados. Lançados desde as trincheiras onde as condições de vida traumatizaram muitos soldados, sob as bombas inimigas para ganhar uns metros de terreno em várias horas, os soldados de infantaria morriam por milhares a cada batalha, ao ponto que fala-se de « carne para canhão » e que a vida seja vista como negligenciável. Aliás, são das tropas de infantaria que partiram motins em 1917, do lado francês como do lado alemão. As próprias repressões dos dois Estados faziam prova de uma grande violência, interpretando as deserções e motins como simples e pura traição.
Na Europa de Leste, a guerra foi ainda mais brutal porque as tropas russas eram insuficientemente preparadas. A Revolução russa de Março de 1917, a tomada do poder pelos Bolcheviks em Novembro do mesmo ano, e depois a era de perturbações e de guerra civil que seguiu – e que dura até a década de 1920 com fortes repressões na Ucrânia – acrescentaram-se aos combates da Grande Guerra para alimentar um clima de desconfiança e de violência permanente. Ao ódio nacionalista acrescentam-se ódios sociais ideológicos, de classes. A Revolução de Outubro 17 leva um questionamento radical do capitalismo. A violência total é ainda mais profunda na frente de Leste, porque é anterior à guerra: para mencionar só uns exemplos, o final do século XIX e o início do século XX já vêem vários pogroms organizados contra comunidades judáicas, com o consentimento do regime czarista; os massacres de 1894-1896 constituiram, na Turquia otomana, um prelúdio muito claro ao genocídio armeniano de 1915-1916; Quanto à revolução russa de 1905, o seu tamanho e a repressão que ela sofreu deram para ver o que era susceptível de acontecer, na altura da queda do Czar em 1917. Esses eventos e ações já instauram uma certa brutalização da sociedade.
Três tipos de leitura foram feitas da Grande Guerra: uma pelo prismo diplomático, o qual supõe que ela foi um problema de nações; uma outra pelo prismo das sociedades, que eram unidas na guerra com as « uniãos sagradas » e uma certa coesão social atrás do exército (excepto a Rússia czarista); e, terceiro, pelo prismo individual, procurando explicar a guerra a um nível antropológico (colocando em primeiro lugar a responsabilidade das elites e dirigentes). A diversidade dessas grelhas de leitura mostra sobretudo que esta guerra afectou profundamente todos os níveis da sociedade.
Toutefois, la propagande d’État se sert au contraire de la mémoire de la guerre, l’instrumentalise. Partout en France par exemple, dans chaque village, vont fleurir des monuments aux morts
Para muitos, a guerra foi o terreno de experimentação da morte e da violência quotidianas, criando uma cultura da guerra. Certamente, o olhar no terrível balanço do conflito e sobre a absurdidade dos combates (as dificuldades da vida nas trincheiras e além, o dogmatismo táctico das comandos militares que mandavam milhares de soldados morrer para ganhos territoriais insignificantes...), também produziu uma viva crítica da guerra, e ainda uma forma de hedonismo, uma vontade de curtir a vida para esquecer os horrores cometidos e o esforço coletivo realizado; de uma certa forma, nos paìses vencadores onde não há crise económica importante a seguir do conflito, os « anos loucos » (années folles) da década de 1920 o ilustram bem. Contudo, a propaganda de Estado serve-se pelo contrário da memória da guerra, instrumentalizando-la. Em todas as aldeias da França, por exemplo, são erigidos monumentos dedicados à « crianças » da nação (« mortos por ela ») que perderem a vida no conflito. Os heróis da guerra vão ser objeto de um mito, com a difusão de uma visão puramente heróica da guerra, e ao mesmo tempo a sua banalização. Base-se em particular na imagem positiva da camaradagem, nas amizades construidas na frente. A cultura da guerra tem isto de notável que ela tem também como objeto de manter os mesmos sentimentos de ódio e de voluntarismo nacionalista na paz como na guerra. É verdade sobretudo para a Alemanha, onde a derrota não é entendida, num país que não conheceu a ocupação e que a partida do Kaiser para os Países Baixos deixa numa grande confusão; e para a Itália, onde o sentimento de frustrações é predominante quando acaba o conflito, diante dos fracos benefícios territoriais do país. De fato, temos uma reação contrária, uma forma de pacifismo, de receio diante da perspetiva de um novo conflito, em França e no Reino-Unido. É esta contradição das dinâmicas nas diferentes sociedades europeias que vai, com os efeitos da crise de 1929, cancelar os efeitos do trabalho de pacificação tentado no período entreguerras.
O período entreguerras: o fracasso da desmobilização cultural?
O período entreguerras vê um início de desmobilização cultural. Embora usava-se então, em França por exemplo, a expressão la der des ders (abreviação de « a última das últimas »), esta desmobilização não pude ser outra coisa que limitada, pois os tratados de paz não resolverem nada. Pelo contrário, aplicam uma diferença de tratamento entre os diferentes protagonistas da guerra que aparece muito discriminatório em relação aos vencidos, os quais até falaram de « diktat de Versailles ». Entre outras coisas, a Alemanha vê o seu território reduzido e dividido, as suas colónias confiscadas, as suas capacidades limitadas em termos de armas, o seu serviço militar obrigatório proibido, e vê-se forçada a reconhecer a sua inteira responsabilidade no início da guerra. De fato, as questãos levadas pela guerra são sempre atuais quando chega a guerra seguinte (inclusive a de Alsace-Moselle que a Alemanha nazista anexa de novo em 1940). Os contemporâneas falharam em integrar os vencidos. Homem político francês muito importante nesta altura, Aristide Briand (1862-1932), fez o constato que a França, com os seus 1 400 000 de mortos e os seus cinco milhões de feridos, não tinha os meios para impor uma paz assimétrica à Alemanha. E no entanto, a humiliação da derrota constituiu também uma forma de violência para os países vencidos. A Alemanha não viu a derrota: ela permaneceu potência ocupante até o Verão de 1918.
Aristide Briand, que receberá para a sua ação em favor da reconciliação franco-alemã o preço Nobel da paz (com o seu homólogo Gustav Stresemann), lançou uma política de reconciliação com os vencidos, que tornou-se transpartidária em França. No seu discurso pronunciado em Genève em 1926 quando a Alemanha entra no Sociedade das Nações (SDN), distingue-se três eixos principais. Primeiramente, o chefe da diplomacia francesa pronuncia uma diatribe contra a guerra. Assim, o seu discurso inscreve-se numa depreciação de todos os valores ligados a ela. Segundo, procura invertir a tendência militarista das sociedades europeias, transformando o ardor da guerra em ferramenta contra a guerra (dito de uma outra maneira, fazer a guerra à guerra). Enfim, ele defende as virtudes de uma assembleia que assumeria o papel de juiz, de uma sociedade internacional regida pelo direito. A noção de arbitragem é central no seu discurso: para preservar a paz, Briand conta na arbitragem pelo direito. Os tratados de arbitragem multiplicam-se.
Claro, essa retórica pacifista encontra limites. De fato, há uma contradição entre o fato de querer restaurar uma Alemanha digna, soberana, e ao mesmo tempo conservar artigos discriminatórios do tratado de Versailles. Por isso Stresemann, o próprio que estava encarregado da diplomacia alemã, teve naquela altura muitas dificuldades para convencer os seus concidadãos da relevância dos acordos de Locarno (1925). Sem esquecer que entende-se bem que a chamada de Briand para privilegiar o direito pode também ser interpretada como uma chamada a respeitar as regras estabelecidas (que incluem as do tratado de Versailles).
Além disso, Aristide Briand não pode condenar as causas da guerra. Fundamentalmente, no período entreguerres, a França não volta no que foi dito em Versailles em 1918 e 1919, mas prefere escolhar a amnésia, enquanto é esta a principal revindicação alemã. Há uma grande dissimetria da paz entre vencidos e vencedores. Virar a página é portanto muito mais fácil para os vencedores ou que obterem os benefícios que esperavam. Nos países vencedores onde parece dominar um espírito pacífico (como o mostram as reações nacionais em França e no Reino-Unido após a conferência de Munich de 1938), temos uma reabilitação do inimigo, com ao mesmo tempo um esforço de realismo (sobre o que acontecia realmente no outro lado) e de heróização dos soldados opostos que coloca numa certa igualdade todos os soldados da guerra. Nos países vencidos ou frustados, assiste-se pelo contrário a uma crise de orgulho que alimenta o ódio do outro, com uma desvalorização, uma depreciação do outro, e ao mesmo tempo um violente idealismo sobre o seu próprio país. Na Itália, é até na Roma antiga que o regime fascista vai procurar as suas referências.
Em paralele, uma limite mais conjuntural vai surgir e apagar os esforços de reconciliação e de desmobilização cultural operados pela diplomacia francesa: o mundo ocidental de 1926 é um mundo de paz e de prosperidade, mas a crise financeira de 1929 vai questionar esta situação. Sobretudo, a subida do desemprego e a crise da economia real vai trazer uma outra violência que a da guerra: uma violência social, a da pobreza e da confusão económica e social. Por via de conseqüência, as tensões e violências partidárias subirão ao longo da década de 1930, qualquer seja o país.
A conclusão da Segunda Guerra mundial e a desmobilização cultural em favor da paz
O inimigo absoluto designado no discurso de Briand de 1926 não era mais o povo alemão, mas a própria cultura de guerra. Contudo, o discurso não inicia uma nova era, mas mais uma parentese, como vem o confirmar a ideia de « guerra de 31 anos ». É preciso pensar a paz em termos de « raridade » no período 1914-1945. A Segunda Guerra mundial constituiu uma volta por trás do processo de pacificação das sociedades europeias, por causa do seu caráter totalitário, brutal, violente. Esta parada tinha começada logo com a instauração de regimes totalitários repressivos na Rússia, na Itália e mais tarde na Alemanha. A partir de 1939, e mais ainda a partir da operação Barbarossa em 1941, a todos os níveis, a Segunda Guerra mundial foi o teatro de uma mobilização cultural em favor de uma violência total afectando ao mesmo tempo as áreas militares e civis.
Podemos identificar um certo número de grandes diferenças entre as duas guerras mundiais, que explicam a frustração foi menos grande pelos vencidos e a violência menos presente após a guerra. Primeiramente, uma grande diferença concentra-se na noção de responsabilidade: na Primeira Guerra mundial, os países são entrados em guerra pelo jogo das alianças, e portanto a responsabilidade não era tão clara; no entanto, o tratado de Versailles afirmava o contrário. Sobre a Segunda Guerra mundial, pelo contrário, não há debate sobre a responsabilidade da Alemanha nazista que claramente procurou o confronto. (Apenas analistas teorizam o facto que o próprio povo alemão acabou sendo vítima e preso da loucura dos dirigentes nazistas.) Aliás, a Segunda Guerra mundial acaba-se pela ocupação total e o colapso do Estado alemão. Toda ideia de vingança e de revindicação é portanto impossível na altura que segue, e mesmo se tinha sido possível, nenhum responsável político alemão poderia a ter levada.
Durante a Segunda Guerra mundial, as vítimas são maioritariamente destacadas dos teatros de guerra: de fato, ela fez uma maioria de vítimas civis. Temos, a partir de 1945 e da criação das Nações Unidas, um tipo de consenso que permite inventar, em direito internacional, as noções de crime de guerra, de crime contra a humanidade, de crime contra a paz, que vão contribuir a fazer prevalecer a arbitragem pelo direito (a qual Briand elogiava em 1926) e a fazer da guerra um erro em si. No plano exterior, a República democrática alemã e a República federal alemã terão a preocupação de reintegrar-se na comunidade internacional, de voltar a uma forma de normalidade diplomática. Por exemplo, é voluntariamente que a Alemanha de Loeste renunciou a dotar-se da arma nuclear.
Podemos acrescentar, como ponto de distinção essencial entre os dois períodos de após-guerra, o de 1918 e o de 1945, o fenômeno de resistência, uma maneira de fazer a guerra à guerra. De fato, a ocupação criou formas multiplas de resistência contra um adversário comum, com uma diversidade dos movimentos (cristãos, socialistas, comunistas, etc.). São muitas vezes resistentes que vão encontrar-se no poder após a guerra, e para quem o fim dos combates era uma finalidade. Assim, Altiero Spinelli (1907-1986), homem político italiano considerado como um dos fundadores da construção europeia, tinha sido preso nas prisões fascistas. É um dos exemplos desta continuidade resistência-política pós-guerra. Em França, o general Charles de Gaulle, que dirige o governo entre 1944 e 1946 e dirige o Estado entre 1958 e 1969, é um outro exemplo deste fenômeno, embora ele não era favorável a uma construção europeia baseada num poder supra-nacional.
A resistência é dirigida por motivações nacionais, mas também políticas, condenando em particular os fundamentos dos regimes fascistas e a violência total que os caraterizou: os campos de concentração, os recrutamentos forçados, etc. De fato, os regimes do Eixo levaram ao seu apoteose a cultura da guerra e a brutalização da sociedade, estabelecendo sistemas repressivos baseados na vigilância, na propaganda e na doutrinação das massas, e levando ideologias imperialistas, portanto conquistadoras e belicistas. Os combater, era portanto também combater esse conjunto de valores liberticidos, desiguais e profundamente brutais. Pelo contrário, os movimentos de resistência europeus quase todos encontraram-se em Londres, e estabelecerem projetos políticos: assim, vê-se o fim da guerra como a possibilidade de construir novas dinâmicas, não de repetir as antigas. Por exemplo, os resistantes franceses levavam um projeto no qual germinava todo um programa político e social – que daria nascimento à Segurança social, ao Estado-providência, etc.
A Guerra fria que rapidamente sucedeu à Segunda Guerra mundial teve um efeito estabilizador óbvio. Ela foi ao mesmo tempo um fator de conflictualidade (entre a Europa do Plano Marshall e a dominada pela URSS) e de estabilidade (pelo balance of power, que a bomba nuclear vem acentuar). Sobretudo, os equilíbrios mudaram completamente em relação a o que era a Europa na década de 1930. As potências dominadores não são as mesmas, a URSS dominando a metade do continente. Além disso, a violência da guerra revelou-se tão destruidora, a tal ponto que a reconstrução necessária a uma nova « guerra democrática » não parece então possível a curto prazo. O desafio é restabelecer a prosperidade para ultrapassar a situação de uma economia de guerra marcada pela privação. O equilíbrio territorial instaurado pela Guerra fria vai perdurar uns quarante anos e levar os conflitos fora da Europa.
A situação de 1945 não muda quase nada, na Europa, durante quase um meio-século, mas a subida dos nacionalismos nos Balcãos na década de 1990 poderia ser considerada como a retomada de uma dinâmica antiga. Será que as limpezas étnicas em particular, que afectam os civis sem limites, inscrevem-se também numa dinâmica de longo prazo? A persistência de um forte nacionalismo, a separação das comunidades e o lentor do alargamento da União Europeia na região dos Balcãos deixam temer esta possibilidade. E ainda ai, os efeitos das frustrações de uns e outros são a olhar com precaução no âmbito do colapso rápido da ex-Iugoslávia, no início da década de 1990. Em menor grau, esta interrogação sobre a guerra mesmo e os seus determinantes também pode ser formulada em relação a conflitos observados na ex-União Soviética, sejam eles gelados (Transnístria, Ossétia do Sul, Abcásia), ativos (na Ucrânia) ou acabados na violência (Chechénia, Nagorno-Karabakh).
De fato, a cultura da violência tem de específico que ela mantem vivos sentimentos de ódio, de frustração e de violência em tempos de paz como de guerra, e portanto ela entretem-se (inclusive com formas de violências sociais permitidas pelas instituções estatais ou comunitárias); então temos que constatar que a pacificação e a cultura da paz também não são realidades paradas, mas dinâmicas que pedem a ser entretidas, motivadas, justificadas e levadas por ambições racionais, sociais e humanistas.
Cemitério de Doua, na região de Lyon, em França, que foi inaugurado em 1954. Lugar importante para a resistência francesa durante a Segunda Guerra mundial, são lá enterrados militares de várias nacionalidades, mortos durante as guerras de 1914-1918 e de 1939-1945, em particular Belgas, Britânicos e Norte-americanos.
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