Resistência à Agressão Publicitária: a associação que luta pela « liberdade de recepção » e contra o consumismo frenético
Uma publicidade é transmitida na televisão, convidando a festejar o seu aniversário no Mac Donald, a famosa franquia de restaurantes (associada à junk food e à avesão fiscal); um cartaz no métro convida as pessoas « jogadores » a fazer apostas despotivos, com uma minúscula mensagem de sensibilização às adicções (a qual, óbviamente, quase ninguém lê); um painel publicitário, na rua, encena um ator famoso acusado de violências conjugais, Johnny Depp, na promoção de um parfumo chamado « Selvagem »; um ecrã no métro apresenta, ainda e ainda, o anúncio de um filmo, ao custo de um desperdício de energia contínuo e de uma agressão luminosa à qual é bem difícil escapar...
A publicidade, omnipresente no nosso dia a dia, constitui, com o crédito ao consumo, a moda e as marcas, um dos principais instrumentos do sociedade de consumo de massa na qual o Ocidente, e a seguir o mundo inteiro, instalaram-se desde décadas – descrivíamos a sua implementação neste artigo de Outubro de 2022: A sociedade de consumo na Europa: crônica de uma construção sociocultural não-sustentável. Influencia os nossos modos de vida e de consumo, apoiada para isso pelas ciências cognitivas e sociais, e constitui um vetor central de mudanças culturais – em geral ao benefício do capitalismo que a financia, e não ao benefício de uma maior respeito dos vivos ou dos humanos. E os valores investidos na publicidade são conformos às esperanças que ela cria em termos de consumo; por exemplo, apenas em França, entre 2019 e 2023, os anunciadores publicitários gastaram entre 13 e 17 bilhões de euros cada ano. Apenas a famosa marca de soda norte-americana Coca Cola investiu mais de cinco bilhões de dólares em publicidade em 2024.
Os poderes públicos, na Europa, regulam a publicidade sobre os diferentes mídias desde anos, mas sem questionar realmente o modelo de sociedade consumerista promovido pela publicidade nas nossas vidas. É para lutar contra ela, contra o seu impacto ecológico monstruoso e contra as suas muitas injunções, que constituou-se, em França, há mais de 30 anos uma associação ativista, cujo nome resume bem a ambição: Resistência à Agressão Publicitária (RAP), Résistance à l'Agression Publicitaire em francês. Foco sobre essa iniciativa ambiciosa, que pretende lutar contra a publicidade (e o seu mundo).
Ação de cobertura durante do dia do 25 de Março de 2025 em Rouen, no Nordoeste da França. (Crédito foto © Groupe local de Rouen RAP)
Uma diversidade de ações para enfrentar o problema da agressão publicitária
O objetivo da associação é claramente anunciado: lutar contra os efeitos negativos, diretos e indiretos, das atividades publicitárias sobre o ambiente (desperdício dos recursos, poluição sonora, visual, da paisagem, resíduos, etc.) e sobre as cidadãs e os cidadãos (injunção ao sobreconsumo, consequências sobre a taxa de obesidade, banalização da violência, etc.). Ela pode contar com uma equipa composta por quatro salariados (a meio tempo) e dezenas de voluntários, e com 500 membros em todo o território nacional. A associação dispõe de doze grupos locais em França, que têm autonomia e uma carta global de funcionamento. Os seus financiamentos são diversos (mas sem financiamentos públicos, para manter uma independência e uma liberdade de expressão, em relação aos poderes públicos); além das contribuições das suas centenas de membros, a associação beneficia do apoio de algumas fundações: a Fundação Charles Léopold Mayer para o Progresso humano (FPH), a fundação Um Mundo para Todas·os (ligada à Fundação de França), ou ainda a Fundação Não Violência XXI.
Criada em 1992, Resistência à Agressão Publicitária tem mais de três décadas de história, contra o sistema publicitário. A sua estratégia mistura com inteligência ações de sensibilização política e cidadã e um ativismo de terreno que dá sentido ao trabalho dos seus membros. A associação conseguiu assim, ao longo dos anos, desenvolver vários tipos de ação, primeiramente diferentes mobilizações e campanhas (pontuais ou regulares) conduzidas cada ano. Podemos mencionar a operação « Stop Pub Lumineuse et Omniprésente », cujo alvo era a regulação das menssagens publiciárias visíveis e presentes no espaço público, assim como nos transportes públicos, e que concretizou-se por exemplo por duas ações: o lançamento desde 2017 da campanha « Stop Pub Vidéo » para a proibição dos ecrãs publicitários digitais (com ações de « cobertura » por exemplo), e em Janeiro de 2023 da campanha « Zéro Watt pour la Pub » para proibir qualquer publicidade luminosa.
É muito motivador trabalhar em um projeto que é percebido como muito ordinário pela grande maioria da população (que acha que não vê a publicidade). E, portanto, é motivador tentar ir um pouco contra a corrente dessas ideias.
Duas outras campanhas significantes merecem ser mencionadas: « Stop Pub Climaticide », com objetivo fazer priobir a publicidade para os produtos que poluem mais (combustíveis fósseis, automóveis, alimentação com forte impacto ambiental, etc.); e « Stop Pub Sexiste », que reclama que seja criado um quadro para a publicidade, para sancionar qualquer abuso sexista e discriminante nesse setor – um desafio imenso, dado a importância das publicidades que levam injunções à epilação, à juventude, ao emagrecimento, à sedução, etc. Enfim, de forma regular, a associação implementou desde vários anos um Dia mundial contra a publicidade, em 25 de Março. Adaptando-se às questões ligadas ao digital, um grupo de trabalho criou-se recentemente dentro da associação para pensar a estratégia que deve ser conduzida sobre a publicidade online.
Ela conduz também um trabalho regular de informação e de sensibilização (em meio escolar, ou por conferências, eventos, etc.); ações não violentas como a cobertura de placas ou ecrãs de publicidade, ou o apagamento de letreiros; advocacia em direção dos poderes públicos para fazer evoluir a legislação e lutar contra a introdução da publicidade nos serviços públicos (em particular em contexto escolar, e para isso, a associação quer que o Estado inspira-se da lei Évin adoptada em 10 de Janeiro de 1991, a qual impõe um quadro à venda do álcool e do tabaco); e um trabalho de seguimento e informação sobre os abusos das sociedades multinacionais e da industria publicitária.
E se a publicidade permanece omnipresenta no nosso dia a dia, pequenas vitórias são ganhadas: assim, em 2016, foi decidida a proibição da publicidade com alvo crianças no audiovisual público; em 2021 ainda, foram obtidas a proibição da publicidade para os coombustíveis fósseis, tal como a experimentação do « Oui Pub » para condicionar as publicidades nas caixas de correio.
Eu fiz inicialmente uma formação no design gráfico. Portanto fazia sentido para mim criticar a publicidade porque eu aprendi como funciona, quais são engrenagens usados em ciências sociais e cognitivas para convencer as pessoas de mudar o seu modo de consumo.
Fui voluntária para RAP cinco anos antes de ser recrutada como salariada. Eu achei lá muito sentido: o sentido do que fazemos, o ambiente muito ótimo com os voluntários e na equipa salariada... O jeito de processar é bastante horizontal e anarquista, portanto faz sentido para mim em termos políticos. E além disso é lúdico, porque procuramos ter alegria ativista, e acho que é essencial para continuar a lutar com uma máquina que é muito maiora do que nós.
O desafio de chegar a uma « liberdade de recepção » da publicidade
A ambição da associação é global. Ela promove uma série de medidas de regulação da publicidade (e o respeito da legislação atual), a « liberdade de recepção » da publicidade, e também a criação de uma autoridade independente de regulação das atividades publicitárias. Na rua, traduziria-se por anúncios menores, menos agressivos e menos omnipresentes. Nas caixas de correio, por autocolantes especificando que a pessoa aceita de receber publicidade. Igual para a solicitação por telefone, se as pessoas aceitam ser incomodadas pelo telemarketing. Na Internet, na televisão e no rádio, ou ainda nos jornais, a ideia seria rever o modelo económico das diferentes mídias. Thomas Bourgenot, encarregado de advocacia da associação, que temos encontrado em dia 1 de Avril de 2025, no local de RAP em paris, explica: « Tem muitas publicidades sofrida pelas pessoas ». O pressuposto de base da associação, é que a publicidade funciona e influença o consumo; mas, porque a publicidade promove primeiramente a grande distribuição, ela entretem um modo de vida que anuncia a morte dos centros urbanos e o uso inevitável do carro, levando o consumo para centros comerciais gigantescos, espalhados nas periferias urbanas onde contribuiram a artificializar os terrenos. « Os dois setores que desenvolvem mais anúncios são a grande distribuição e o automóvel, e esses dois vão muito juntos », explica ainda Thomas. A associação esforça-se precisamente a denunciar as injunções (mais ou menos substis) feitas para orientar o nosso consumo e os nossos usos, como o descreve também Khaled Gaiji, encarregado de mobilização na associação: « A nossa ação permite mostrar a parte escondida do icebergue, ou seja, todos os efeitos negativos da publicidade. Porque vamos muito a agressão publicitário como o fato de ver muitas publicidades, mas do meu ponto de vista, é os danos ecológicos e sociais que são ligados a ela, el relação ao sistema de sobreconsumo que tem por trás, e que as pessoas não vêem. Pomos isso tudo em visibilidade. »
Temos um ótimo ambiente na associação. O que é bom, é que é ainda uma área na qual tem muitas ações. Nunca estamos a andar em círculos sobre coisas teóricas, filosóficas – embora é importante! Estamos muito na ação. É o que os anarquistas, outrora, chamavam a « propaganda pelo fato »: vamos agir no nosso objeto de luta, aqui a publicidade, e reapropriamo-nos ela, graças à nossa ação. Por exemplo, substituindo os cartazes publicitários por outras mensagens, desviando elas... É um tipo de ação que dá muitas capacidades e poder de agir às pessoas. É também subversivo, pois não é legal substituir uma mensagem publicitária.
Além disso, a associação acrescenta à questão da obsolescência programada a de obsolescência marketing. Ou seja, o fato de desenvolver estratégias marketing, comerciais e publicitárias que condicionam as vidadãs e os cidadãos ao rotatividade prematura dos objetos – antes mesmo que eles sejam defeituosos. Esta forma de obsolescência, que se desenvolve por exemplo a cerca da moda, ou de produtos como o smartphone (pensamos às filas de clientas em cada saída comercial de um novo IPhone, apesar de inovações muito limitadas em cada novo modelo), também é qualificada de « obsolescência estética », « cultural » ou « psicológica ». « Não somos contra a publicidade em si, nos diz Thomas, ou seja, o fato de tornar públicas informações, seria sem sentido numa democracia, pois uma democracia onde não tem informação em circulação não seria uma boa democracia. Contudo, somos muito críticos sobre o sistema publicitária como existe atualmente, ou seja, anunciadores que pagam agências para nos impôr messagens publicitárias via redes de anúncios. » Ele acrescente: « Tomamos conta que é muito difícil não sofrer com a publicidade, e que a publicidade como a entendemos num sentido restritivo, é em maioria muito comercial sobre bens e serviços que são geralmente ou muito maus para o inivíduo, ou muito mau para o meio ambiente. [...] Vamos ter dificuldades para mudar o comportamento dos indivíduos diante do consumo, enquanto receberemos tantas mensagens por dia. Apenas mudar o sistema publicitário não mudará o mundo, mas mudar o mundo sem mudar o sistema publicitário, parece-nos complicado. »
Para mim, a antipublicidade, reúne muitas coisas, porque a publicidade trata de muitos assuntos sociais: a ecologia, o sexismo, a justiça social, a saúde, o racismo... Isso sublinha bastante desigualdades que achamos na vida de todos os dias, e é o braço armado do consumerismo. Isso permite falar do sistema no qual vivemos, o consumerismo e o capitalismo. Mais nos interessamos à publicidade, e mais vemos esse sistema em detalhas. Portanto mais reflectimos sobre a publicidade, e mais reflectimos a outras desigualdades sociais. Para mim, é isso o mais importante: as messagens discretas, as injunções que damos às pessoas.
Para ir mais longe, podem seguir ou apoiar a ação da associação Resistência à Agressão Publicitária pela via do seu website:
/https%3A%2F%2Fantipub.org%2Fwp-content%2Fuploads%2F2018%2F01%2Flogo-stop-pub-video.png)
Résistance à l'Agression Publicitaire
Ce mercredi 21 mai, le Sénat a définitivement adopté la proposition de loi " pour un démarchage téléphonique consenti et une protection renforcée des consommateur[ice]s contre les abus ", so...
/image%2F0495588%2F20210905%2Fob_95df09_oadl.jpg)
/image%2F6728977%2F20250805%2Fob_6b863a_image-0521679-20250428-ob-e47cc5-foto.jpg)