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O acendedor de lampiões

Será que as meninas devem tornar-se princesas e os meninos cavaleiros?

2 Février 2026 , Rédigé par Jorge Brites Publié dans #Género, #Sociedade

Será que as meninas devem tornar-se princesas e os meninos cavaleiros?

Apesar de não serem (atualmente) as priores no mundo em termos de igualdade homem-mulher, as sociedades ocidentais não são isentos de muitas discriminações de género, com a perpetuação de vários prejuízos. Estereótipos ainda permanecem, e é preciso lembrar que em França por exemplo, é só em 1965 que as mulheres casadas foram autorizadas a trabalhar sem a autorização do marido. Não é surpreendente que, depois duas gerações, ainda permanecem lacunas ao princípio de igualdade e que as mentalidades ainda devem evoluir.

O que surpreende no entanto, é quando as próprias autoridades públicas contribuem a alimentar essas construções sociais. Em Abril de 2018, o bloguista francês Christophe Grébert denunciava uma área de jogos que ele qualificava « de género », instalada pelo Município de Puteaux. O problema: um espaço azul à esquerda com uma decoração de cavaleiros, e um espaço cor-de-rosa à direita com uma decoração de princesas, e entre os dois, uma separação clara com um beco e grelhas. O planejamento desse jardim infantíl pode parecer inofensivo – ainda mais porque uma vez lá, constata-se que as crianças circulam indiferentemente de um lado ou do outro. No entanto, revela a persistência dum coquetel de elementos que participam, desde o nascimento até ser adulto, a categorizar e a orientar os indivíduos em função do seu sexo e não das suas capacidades e da sua vontade.

Logo no dia 1eiro de Janeiro de 2019, dia da tomada de posse do novo governo na país dela, a (então) recente-nomeada ministra brasileira da Mulher, Família e Direitos Humanos, Damares Alves, provocou várias reações por ter explicado que « [começava] uma nova era no Brasil », na qual « menino veste azul e menina veste rosa ». Uma grande lição de estereótipos de género, dada por essa mulher conservadora, pastora evangélica. Se alguém ainda tinha esperanças de ver a nova governação d país moderar os seus discursos sobre as questões ligada à igualdade entre homens e mulheres, essa declaração foi suficiente para as apagar.

Mas antes de continuar, voltamos na rua Paul Bert, na cidade de Puteaux, onde achamos a nossa área de jogos. A escolha da decoração parece despercebida pelos pais e as crianças presentes. E é bem porque parece despercebida que é subtilmente perigoso. Sendo claro: hoje em dia, em 2019, em França, essa escolha não é por acaso. Revela uma visão da sociedade, da mulher e do homem, e portanto da ordem social. Pode-se dizer que as crianças podem circular livremente dum espaço ao outro, que não é dito para as crianças onde devem ir. Mas porquê sempre essa separação, ligando dum lado o azul no universo do cavaleiro (que raramente é uma mulher) e todas as aventuras que o acompanham, e de um outro lado o rosa com o mundo das fadas e das princesas (sempre mulheres), muitas vezes figuras de vítimas passivas, na espera que um herói vem as salvar? Que mensagens mandamos, de maneira inconsciente, às nossas crianças que ainda não estabelecem claramente essa distinção baseada no género? Como as puxamos insidiosamente numa « homossociabilidade » que terá necessariamente, ao longo prazo, um impacto nas suas representações do que deve ser um homem e do que deve ser uma mulher?

Será que as meninas devem tornar-se princesas e os meninos cavaleiros?
O parque « de gênero » para crianças, rua Paul Bert, no município de Puteaux (França).

O parque « de gênero » para crianças, rua Paul Bert, no município de Puteaux (França).

Essa escolha não é por acaso. E não é a primeira vez que o Município de Puteaux age dessa maneira. Em 2014, já tinha distribuída mochilas para crianças escolarizadas. De um lado de cor rosa, acompanhado dum kit de criação de jóias, e de um outro lado mochilas azuis com um kit explicando como construir um robô. O Município defendeu-se de ter indicado se as mochilas cor-de-rosa eram para meninas e as azuis para meninos. No entanto, no que poderia parecer sem importância, temos um condensado incrível aos piores clichés sobre os homens e as mulheres. A cor-de-rosa e as jóias, os dois associados ao sexo feminino nas culturas ocidentais, convidam as meninas, muito cedo na vida delas, a preocupar-se do seu visual, da sua beleza, a ocupar-se do seu corpo como objeto para destacar. O kit azul, uma cor muito associado ao sexo masculino, puxa os meninos a desenvolver o saber técnico. Eles não são objeto a valorizar, a decorar, são simplesmente sujeitos, que pensem, que constroem  com ses neurônios. Difícil de fazer mais estereótipos sobre as bonecas e os jogos de cozinha para as meninas, e a bola de futebol e o trem eléctrica para os meninos. Um vez adultos, difícil também de ficar surpresa com tão poucas mulheres nas escolas de engenharia, e da falta de homens nos empregos ligados à primeira infância. Igualmente, tendo em conta as ambições revistas a baixa por muitas mulheres, difícil de ficar surpresa quando observa-se o número importante de mulheres enfermeiras ou aeromoças, e de homens médicos ou pilotos de avião.

Imagem do filme Catch Me If You Can (« Apanha-me se puderes » em Portugal, « Prenda-me se for capaz » no Brasil), que saiu em 2002 no cinema.

Imagem do filme Catch Me If You Can (« Apanha-me se puderes » em Portugal, « Prenda-me se for capaz » no Brasil), que saiu em 2002 no cinema.

Porquê o azul para os meninos, e a cor-de-rosa para as meninas?

As razões dessa dicotomia entre azul e rosa são históricas, e permanecem. Uma simples visita num loja de brinquedos, ainda hoje, permite constatar a persistência dessa diferenciação baseada no género e ligando a cor a um sexo – o que já constitua, duma certa maneira, uma forma de sexualização da criança, independentemente dos seus desejos reais ou dos seus centros de interesso. Não há escolha. Flocos, rosa e princesa para meninas; azul, super-herói e aventuras para meninos. Igual para as roupas, ou os ferramentas escolares.

Ironicamente, constata-se que, na Idade Média europeia, o código das cores era mais revertida. Porquê, e como a mudança realizou-se?

A Santa Família (óleo sobre tela, a cerca de 1680).

Primeiro, lembramos que o azul sempre teve uma conotação positiva na Europa. Os símbolos evoluíram ao longo dos séculos, passando da divindade na Antiguidade à Virgem na Idade Média, e depois à virilidade e ao heroísmo desde os anos 1950. Pois sabemos que na Grécia antiga, as famílias rezavam pra os deuses para ter um menino em vez duma menina, considerada mais como um peso para quem era preciso prever uma dota no dia do seu casamento. O azul sendo uma cor divina (por ser a cor do céu, residência dos deuses), era então assimilado aos rapazes. A partir do século XII, observa-se uma mudança ligada à evolução das crenças desde o fim do Império romano, e o azul acaba assimilado à Virgem Maria. Simboliza então a pureza.

O século das Luzes reapropria-se depois os valores antigos, em particular inspirados pela democracia ateniense, e marca assim um retorno do azul como cor « masculina ». Ao longo do tempo, esta associação de ideias viu-se progressivamente confirmada.

A origem da cor-de-rosa vista como « feminina » é mais recente. Na Idade Média, até era mais reservada aos homens, como o ilustram as meias longas e calças dos cavaleiros em várias representações medievais – vista como uma derivação do vermelho, a cor-de-rosa era associada à virilidade e a agressividade... e então aos homens.

São Jorge matando o dragão (óleo/madeira, XVI°s.).

Mais tarde, nesse mesmo século XVIII no qual o azul reapropriado como cor « masculina » sob a influência das Luzes, a corte real francesa tem uma influência importante na percepção do rosa. Parece que a seguir uma inovação técnica e artística dum pintor belga, Philippe Rouet, a amante « favorita » do rei Louis XV, a Senhora de Pompadour, impôs o rosa usada na porcelana da oficina real de Sèvres, para os colchas, os penicos e os vestidos das meninas em Versailles. O rosa já comece a ser ligado à beleza, à suavidade... e então às mulheres.

Mas é preciso esperar até os anos 1950 e a influência dos Estados-Unidos para a cor-de-rosa ganhar a dimensão « feminina » que conhecemos hoje. As figuras como Grace Kelly, atriz americana tornada princesa de Monaco, que adorava o rosa e vestia a sua recente nascida, Caroline de Monaco, só com essa cor, tomaram um papel nesse movimento.

Os anos 1970 marcam as chegadas das primeiras ecografias, que tornam possível o fato de conhecer o sexo da criança antes do parto... e então de preparar a chegada dela, com todos os acessórios e decorações necessários. Incluído em função do sexo. Logo nos anos 1980, as grandes marcas e as lojas femininas apropriam-se o código de cores que ainda permanece até hoje. A sociedade de consumo foi então um ferramenta essencial desta « sexualização » das crianças. Pois, lembramos o princípio marketing segundo o qual os consumidores são mais incentivados quando os produtos são personalizados ainda é, hoje em dia, ensinado e plenamente usado.

Moldes de bolo à venda, em um supermercado Monoprix em Paris (França). (Crédito foto © Marion Lecalvez, 2018).

Moldes de bolo à venda, em um supermercado Monoprix em Paris (França). (Crédito foto © Marion Lecalvez, 2018).

No entanto, notamos que a cor das roupas das crianças não conhecia realmente distinção baseada no género antes dos anos 1950, nem na Europa, nem nos Estados-Unidos. Pois durante muito tempo, as crianças levavam branco, símbolo de inocência e de limpeza, até a idade de seis anos. E até podia-se encontrar meninos vestidos de saias.

Hoje em dia e desde alguns anos, constata-se lentes evoluções morais e culturais, que manifestam-se também com uma subida das ideias feministas, nas quais um recuso do condicionamento dos indivíduos em função do sexo. A lógica, segunda a qual se um menino quer brincar com uma boneca, não precisamos considerar isso de forma pejorativa ou aviltante, ganha pouco a pouco as mentalidades. Igual para as meninas, com brinquedos geralmente atribuídos aos rapazes. A ideia sendo que a criança desenvolve-se mais facilmente, simplesmente, com os brinquedos que ele deseja realmente, e se ele veste-se como quiser. Mas a frente, a oferta ainda falta. Bem verdade que certas marcas propõem agora roupa de cama, lençóis e decoração para quartos mistos, com laranja, verde ou tonalidades de cores mais claras. Até certas lojas têm pelúcias unisexos, que podem servir para meninos como para meninas. No entanto, uma simples ida em espaços dedicados a roupas ou a brinquedos para crianças em grandes espaços comerciais basta a constatar que essa neutralidade sexual ainda é longe de ser o comum.

Das bonecas Barbie aos filmes Disney: a influência da sociedade de consumo na construção dos clichés e na definição do percurso de vida baseado no género

A ideia que a propensão das sociedades humanas a repartir as suas funções sobre uma base de género seria de origem natural, defende-se. Em muitos mamíferos, observa-se que machos e fêmeas são confinados a tarefas diferentes no grupo. No seu livre O terceiro chimpanzé  – Ensaio sobre a evolução e o futuro do animal humano (1992), o geógrafo e biologista norte-americano Jared Diamond lembra-nos, aliás, que « [na] espécie humana, os cuidados aos pequenos são esbanjados pela mãe, com maioria dos casos um forte participação do pai; mas, nos chimpanzés, só a mãe tem a carga desse tipo de tarefa. » E temos que lembrar que somente 1,6% do nosso ADN difere daquele do chimpanzé comum de África, e que menos de 500.000 anos de evolução nos separam da aparição do « Homem moderno » no planeta (o que representa um tempo muito reduzido na História natural, que viu os primeiros hominídeos tomar uma via evolutiva diferente dos grandes macacos há pelos menos seis milhões de anos). É então bem possível que, desde as sociedades humanas de caçadores-catadores da Pré-História até hoje, instintos naturais permanecem e explicam que o essencial das sociedades humanas foram fundadas em sistemas patriarcais e patrilineares. Com mulheres dedicadas a tarefas da casa, tendo que manter o seu corpo num objetivo de sedução, dedicadas à reprodução, e com homens ocupados à segurança e à caça, e mais tarde à diplomacia, à política e à religião, ou seja à maior parte das funções dirigentes. O homem tem um pênis e testículos, e a mulher tem uma vagina e um útero, eles não são a mesma coisa. Nem no estado animal, nem no estado pré-histórico, nem hoje (ou seja, nem com roupa e vivendo em comunidades caracterizadas por um Estado centralizado enquadrado por leis).

Mas admitir que eles não são « a mesma coisa » não significa que eles não podem ser declarados iguais e que não se deve lutar por esse princípio de igualdade. Admitir que homens e mulheres não são « a mesma coisa » não significa que a nossa sociedade, na qual cada vez mais nos distanciamos do nosso estado de natureza, do nosso estado animal (e felizmente, pois a lei do mais forte nem é sempre a melhor), deve colocar as pessoas em casas e as impedir de escolher os empregos que querem e os percursos que lhes permitem de ser felizes. Já que pretende-se construir um modelo de sociedade que respeita os princípios de igualdade e de liberdade entre todos os cidadãos, e que contribue realmente a dar os meios de desenvolver-se e ser felizes, o que cresce a nossa civilização humana é também de procurar a distanciar-se desse estado de natureza (que mal conhecemos, de qualquer jeito), mais do que o aceitar e o manter, perpetuando assim as injustiças que ele induz. Para atingir a felicidade, é preciso limitar as pessoas nos papeis que definimos em função do sexo de cada um, ou será mais relevante interessar-se aos seus desejos e às suas qualidades individuais?

Caixas de Playmobile na Galeries Lafayette, em Paris (França). (Crédito foto © Sara Brites, 2018)

Caixas de Playmobile na Galeries Lafayette, em Paris (França). (Crédito foto © Sara Brites, 2018)

A questão quase é retórica. Aliás, a noção de estado de natureza é tão controversa que não pode servir como base de uma argumentação sólida, pois é manipulada pelos reacionários mais extremistas. O que é contra-natureza para uns nem é sempre considerado assim por outros. Para muitas mulheres, não é « natural » maquilhar-se, fazer-se de bonita para o seu marido e dedicar-se em tempo inteiro para sua casa.

A realidade dum patriarcalismo muitas vezes milenário inscreveu a dominação masculino num mármore cultural que será bem difícil a modificar. Se olhamos as nossas sociedades contemporâneas, temos que constatar que elas criaram ferramentas muito perniciosos para orientar homens e mulheres, desde os primeiros tempos da infância, numa especialização das tarefas e dos centros de interesses. Em Ocidente, a literatura para crianças acumula os estereótipos diversos, sobretudo quando trata-se dos papeis e das representações. As meninas, muitas vezes, colocam rosa, são princesas esperando pelo um príncipe encantado. Os meninos, em azul, são cavaleiros corajosos lutando contra dragões terríveis. Mamã está a cozinha enquanto papá está no trabalho. E é nesse âmbito que são educados muitas gerações de crianças.

Problema: o processo de « sociabilização diferenciada » das gerações jovens – como o qualificava a doutora em psicologia Anne Dafflon-Novelle num livre de 2006 – deve ser conectado com os papeis que homens e mulheres, uma vez adultos, são chamados a assumir (com todas as relações de poder que os acompanha). É primeiro e a educação e o exemplo dos adultos que condicionam os indivíduos, no entanto não podemos por de lado os muitos elementos periféricos da sociabilização (os brinquedos, as roupas, os desportos acessíveis, etc.) que acentuam as diferenças. Ainda haveria, sempre segundo Anne Dafflon-Novelle, em média duas vezes mais heróis do que heroínas no álbuns ilustrados infantis; ou dez vezes mais de heróis-animais do que heroínas-animais. Nas mesmas histórias, as meninas são principalmente limitadas a um papel doméstico (em interior, com brinquedos ou acessórios tipicamente femininos, em papeis passivos). Os meninos, eles, assumem atividades exteriores (desportos, besteiras, jogos entre amigos, em papeis ativos). Igual para os adultos: as mulheres aparecem muito pouco no mundo profissional e têm a maior parte do tempo um papel maternal, enquanto os homens têm muitas vezes trabalhos profissionais diversificados e valorizados.

Bonecas Barbie na Galeries Lafayette em Paris.

O impacto duma boneca como Barbie, vendida a mais de um bilhão de exemplares desde a sua criação em 1959, é obviamente difícil a medir na percepção das crianças no que deveria ser uma mulher adulta ideal. Mas provavelmente não é anedótico, sobretudo quando ele acrescente-se a muitos outros elementos do quotidiano. Com suas medidas físicas incompatíveis com uma vida ordinária e acessórios muito tempo dedicados a lazeres e a ocupações ligadas à imagem da mulher sustentada ou da mulher da casa (cozinha, carro descapotável, etc.), Barbie divulgou uma imagem de call-girl de luxo, com uma cintura ultra-fina, seios em forma de conchas e uma cara de criança. Muitos pais, esses últimos anos, acusaram o famoso brinquedo de truncar a imagem da mulher e de favorecer a anorexia. A evolução (feliz) da sociedade tem um impacto tão negativo sobre as vendas da boneca que a sociedade americana Mattel, que a criou, foi obrigada a diversificar sua oferta. Em 2016 em particular, a Barbie tradicional com pernas longas, peito cumprido e cintura ultra-fina viu assim chegar no mercado três novos modelos : « Tall » (alta et longilínea), « Pequena » (baixinha) e « Curvy » (« carnuda », com menos peito, uma barriga, nádegas e as quadris mais redondas, coxas mais largas).

Comparação da boneca Barbie clássico com « Curvy », uma das suas concorrentes criada pela empresa Mattel em 2016 para responder às críticas sobre as medidas e do visual altamente improváveis ​​da primeira.

Comparação da boneca Barbie clássico com « Curvy », uma das suas concorrentes criada pela empresa Mattel em 2016 para responder às críticas sobre as medidas e do visual altamente improváveis ​​da primeira.

Outro elemento da nossa sociedade de consumo que apoiou a construção de estereótipos de género: o mundo de Disney. Os filmes Disney já foram objetos de várias críticas e analisas, pois são vistos por crianças muito jovens, a uma idade na qual se formata o carácter e a visão do mundo do indivíduo. Os seus clichés racistas e sexistas foram denunciados, por vários mídias, manuais, estudos e críticas diversas. Também porque o universo Disney usa muito de enormes prejuízos sobre a condição feminina pela via das suas heroínas. Ao contrário, as personagens masculinas são submetidos a uma terrível espera: eles têm geralmente um dever a realizar, e não podem revelar suas fraquezas. Também, certas histórias passam-se em alturas e lugares que são caracterizadas por um papel restritivo da mulher. Dai, não surpreende o fato de Mulan, no filme epónimo de 1998, tem que travestir-se em homem para testemunhar do seu valor à sua família e à sociedade. Mas ela consegue a vitória só com truques, não pela força. O heroísmo e a virilidade são elementos simbólicos ligados ao homem, pois eles são adquiridos pela potência física, que não é acessível às mulheres.

Apesar de sempre ser representadas como únicas, as heroínas e princesas de Disney partilham muito mais traços comuns (psicológicos e físicos) do que diferenças. As caricaturas são diversas: cintura e cara finas, ingenuidade, gentileza, passividade, solidão, submissão, fraqueza física, dependência financeira e sentimental, suavidade, devoção, amor por crianças, compaixão e amabilidade. Herdeiros de contes populares velhos de muitos séculos, os filmes Disney reflectem também a ideologia das suas épocas. As primeiras heroínas, como Blanca-de-Neve e Cinderela, não eram mulheres de ação, mas limitadas à casa, fazendo a faxina, a cozinha, ocupando-se dos outros. E numa situação de aflição, é pelos seus potenciais físicos que elas podem atrair a atenção dum homem, providencial, que vai as salvar. Atrás duma mulher em dificuldade, esconde-se uma jovem princesa potencial (pura e virgem), choquante pela sua beleza humilda, e que será revelado pela chegada do príncipe, único capaz de por a luz no seu verdadeiro esplendor... notando ao mesmo tempo que às vezes, isso passa pela seqüência dum beijo dado enquanto a mulher está adormecida (ou seja, sem o seu consentimento), ou depois de ela ter sido sequestrada, raptada e insultada por aquele que tornara-se o seu marido. O casamento de amor é a chave da sua felicidade, passo indispensável, sinónimo de sucesso último. E os gentis sempre merecem no final da história um lindo casamento e uma forma de riqueza material (às vezes até uma forma de nobreza, tornando-se príncipes ou princesas). Quasimodo, em O Corcunda de Notre-Dame (1996), constitue uma excepção... mas por ele ser feio, entendemos que ele fica feliz com as suas gárgulas, enquanto o linda Esmeralda vai viver o seu idílio com o lindo Phoebus.

Será que as meninas devem tornar-se princesas e os meninos cavaleiros?

Certamente, uns personagens femininos aparecem como « rebeldes », porque distanciam-se dos outros pela sua desobediência: Ariel faz excursões no mundo dos humanos em A Pequena Sereia (1989), a princesa Yasmine recusa casar-se em Aladdín (1992), Pocahontas apaixona-se por um Europeu em Pocahontas: Uma lenda indígena (1995), Bela nega as tentativas de sedução do muito viril Gaston em A Bela e a Fera (1998), Fiona torna-se apaixonada por um ogro no Shrek (2001). Elas aparecem um momento como um peso para suas famílias, para a tradição para os seus pobres pais – lembramo-nos desta frase memorável do Sultão, pai de Yasmine em Aladdín: « Eu desejo-te sinceramente de nunca ter filha! » Mas felizmente, constata-se que elas acabam todas, a final, por voltar no caminho certo, aceitando um homem (bonito, quase sempre) cuja escolha foi validade pelo pai autoritário. Até Mulan deixa a sua armadura e sua espada para voltar na casa familiar e casar-se. O final dessas histórias todas resume-se ao casamento; e em nenhuma, as mulheres libertam-se sozinhas. Pocahontas não deixa de ser a única excepção que escolhe de tornar-se chefe da comunidade dela, em vez de casar-se.

Também é interessante parar um pouco nos papeis de personagens « maus » no universo Disney. Fora do Gaston, que representa a virilidade na sua plenitude, os outros têm raramente os traços do herói ou do príncipe (a beleza, a força, etc.) e são mais efeminados. São geralmente à margem da norma e da sociedade. As personagens como Scar, em Rei Leão (1994), Jafar em Aladdín, magros demais, nem viris nem brutais, demarcam-se do potente Mufasa ou do aventureiro Aladdín. Outro ponto subtil, as mulheres dominantes e independentes ocupam muitas vezes um papel de má: as rainhas em Branca-de-Neve e os Sete Anões (1937) e em Alice no País das Maravilhas (1951), a madrasta e as filhas dela em Cinderela (1950), Maléfica em A Bela Adormecida (1959), Ursula em A Pequena Sereia, ou ainda Medusa em As aventuras de Bernard e Bianca (1977). Observamos ainda com essas personagens más umas características geralmente associadas aos homens: a força (física e de carácter), a ambição, a brutalidade... mas sendo ao mesmo tempo fisicamente repulsivas, feias (ou obesas, ou esqueléticas). Elas conduzem com violência, fumem, atirem com arma, que nem Cruella em Os 101 Dálmates (1961) ou Medusa em As aventuras de Bernard e Bianca. Podemos deduzir facilmente disso tudo que uma mulher que apropria-se o jeito e a autoridade que costumamos associar aos homens, só pode acabar mal.

Incontestavelmente, as obras Disney participaram à construção duma visão sexista do mundo em várias gerações. Não fizeram isso sozinhas, mas vieram completar muitos outros elementos: os modelos masculinos e femininos que oferece a própria sociedade, as desigualdades salariais e sociais, a moda e o mundo dos anúncios publicitários, o cinema e a cultura em geral, etc. Poderíamos ter falado mais, por exemplo, sobre a péssima influência da moda na definição dos critérios de beleza (para as mulheres, e em certo ponto até para os homens): a exposição das mulheres e raparigas às imagens da indústria da moda, com os seus mannequins ultra-magros, padrões de beleza irreais e fotos constantemente corrigidas, pode ter sérios danos.

A luta contra os estereótipos: uma necessidade para permitir o desenvolvimento e a felicidade

É na idade da escola maternal que as crianças começam a construir a identidade e a desenvolver a auto-estima. As referências que lhes são dados alimentem essa construção, e então formatam as suas visões do mundo, definem o lugar de cada um... Os pais e os professores têm um papel a assumir sobre as escolhas dos livres que eles propõem às suas crianças, e devem as ajudar a decifrar o conteúdo do que leem e assistem. pois os livres devem primeiramente ter um papel educativo, e é então preciso os abordar com um espírito critico que ainda falta aos mais pequenos. Com muita clareza, Simone de Beauvoir já explicava, no seu ensaio O Segundo Sexo (1949): « A criança também pode descobrir [a renúncia] por muitos outros caminhos: tudo o convida a abandonar-se em sonho aos braços dos homens para ser transportado num céu de glória. Ela aprenda que para ser feliz, é preciso ser amada; para ser amada, é preciso esperar o amor. A mulher é a Bela Adormecida, Pele-de-Burro, Cinderela, Branca-de-Neve, aquela que recebe e sofre. Nas canções, nos contos, vemos um homem jovem ir aventurosamente a procura da mulher; ele luta contra dragões, combate gigantes; ela é fechada numa torre, um palácio, um jardim, uma caverna, acorrentada a uma rocha, cativa, adormecida: ela fica a espera. Um dia meu príncipe virá. Some day he’ll come along, the man I love… os refrãos populares inspirem-lhe sonhos de paciência e de esperança. »

E ela acrescenta: « A maior necessidade para a mulher, é seduzir o coração masculino; até destemidos, aventureiras, é a recompensa desejada pelas heroínas; e na maioria dos casos, não é lhes é pedido mais do que a sua beleza. Entendemos que o problema da sua aparência física pode tornar-se para a menina uma verdadeira obsessão; princesas ou pastoras, sempre é necessário ser bonita para conquistar o amor e a felicidade; a feiúra é cruelmente associada à maldade e não se sabe bem quando vemos as infelicidades derreterem-se nas feias se são os crimes delas ou a desgraça delas que o destino está castigando. »

Secção Brinquedos das Galeries Lafayette, em Paris (França). (Crédito foto © Sara Brites, 2018)

Secção Brinquedos das Galeries Lafayette, em Paris (França). (Crédito foto © Sara Brites, 2018)

As ações tais como aquelas assumidas pelo Município de Puteaux, que podem duma certa maneira confortar as separações entre meninos e meninas, muito cedo na idade deles, deveriam ser mais controladas pela lei. Não são anedóticas, revelam a persistência duma visão determinista entre homem e mulher. Uma visão onde, em geral, as tarefas as menas valorizantes e as menos estimulantes são reservadas às mulheres. Uma visão terrível, pois necessita, para manter-se, uma forma de tolerância geral sobre as desigualdades que afectam as mulheres. Como se a igualdade que elas procuram fosse um favor que lhes concedemos, e não um simples direito que lhes é devido.

Felizmente, o combate contra os prejuízos não traduz-se só por lutas vãs. Em Abril de 1944, a França alargava o direito de voto às mulheres. Em Julho de 1965, as mulheres francesas eram autorizadas a trabalhar sem precisar da autorização do marido. Em Janeiro de 1975, no mesmo país, legalizava-se o aborto. Em 2017, a bloguista francesa Emma, graças às suas bandas-desenhadas, impôs a noção de « carga mental » no Web, e o sucesso dos hashtags #balancetonporc (« denuncia teu porco » em português) em França e #MeToo nos Estados-Unidos marcava o início duma campanha ativa de denunciação do assédio sexual contra as mulheres. Os objetos da luta afinam-se, atacam dimensões mais subtis do patriarcalismo e da dominação masculina. Mas o acesso à felicidade ainda pertence aos homens. No imaginário coletivo, um menino pode atuar um cavaleiro, conhecer aventuras, lutar contra bandidos, imaginar um universo fascinante e cheio de desafios. Uma menina pode atuar uma princesa. Mas a princesa não luta, não coloca calças, não vai em terras distantes. Será que uma princesa pode fazer desporte? Colocar maquiagem, contar as suas saias e ocupar-se da decoração do castelo enquanto espera o retorno do seu corajoso cavaleiro, é assim que ela deve dedicar o seu tempo, a sua vida. Até quando serão felizes e terão muitas crianças, ela é que vai os vai ficar grávida, parir meia-dúzia de vezes. Mas a final, porquê ela preferiria conhecer aventuras, viajar em lugares desconhecidos, e sonhar um pouco?

* * *

A crítica sobre os estereótipos de género é denunciada por um largo público reacionário como sendo o produto dum lobby associando a comunidade LGBT e feministas radicais. Em países fora de Europa, é vista como uma exportação malsã do Ocidente. Apesar de ser minoritária, é preciso lembrar que a crítica dos prejuízos ligados às desigualdades entre homens e mulheres também é assumida por cidadãos de países do « Sul », não só por Europeus por exemplo. Um dos nomes mais famosos, envolvida nessa luta, é a escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, cujo ensaio Para educar crianças feministas – Um manifesto publicado em 2017 (e escrito em forma de carta) é a sua ultima pedra ao edifício considerável que constitua o seu trabalho militante sobre essas questões. Em países como o Brasil, as eleições gerais de Outubro de 2018 só podem deixar pessimistas no tratamento desses assuntos, já que a própria campanha eleitoral baseou-se na divulgações de informações falsas a cerca duma suposta propaganda esquerdista visando a divulgar teorias de género para as crianças tornaram-se homossexuais... Tudo isso sendo acompanhado de calomnias absurdas sobre supostas práticas de educação sexuais favorecidas pelo PT (o partido de Lula e Dilma). Desde a eleição, essas questões não deixam de ser tabu num país onde falar sobre questões de discriminações baseada sobre o género tornou-se pretexto a acusações sobre uma suposta propaganda homossexual.

No texto seguinte, extrato do seu ensaio O terceiro chimpanzé (1992), no capítulo chamado « A ciência do adultério », o geógrafo e biologista norte-americano Jared Diamond explica porquê, segundo ele, mesmo se processos de dominação masculino nas sociedades humanos tivessem originas evolutivas, a sua causa natural não justificaria de aceitar simplesmente esses processos como são, e que não os combater – em nome de objetivos éticos que nos distinguem do mundo animal.

Depois de pesquisas recentes, ninguém contesta mais o fato que durante a evolução, a seleção natural moldou o comportamento dos animais, bem como as suas estruturas anatômicas, de modo que eles deixam um máximo de descendentes. Quase nenhum cientista duvida que a seleção natural modelou a anatomia humana. Os biólogos discutem com virulência para saber se a seleção natural poderia ter moldado também o nosso comportamento social. Muitos dos comportamentos humanos [...] são agora julgados no Ocidente, marcados pelo selo da barbaridade, e a interpretação dada pelos sociobiólogos sobre a sua aparição na evolução constitua, ao olhar de alguns, uma tentativa de justificação.

Tal como a física nuclear ou qualquer outra ciência, a sociobiologia pode ser usada para servir causas ruins. Nunca se faltou desculpas para justificar as injustiças ou mesmo os assassinatos, mas desde que Darwin formulou a sua teoria da evolução, essa também foi acusado, abusivamente, de representar um desses pretextos. Alguns têm a tentação de olhar para as explicações sociobiológicas da sexualidade humana como tentativas de justificar a dominação dos homens sobre as mulheres, análogas às teorias biológicas avançadas por alguns Brancos para justificar a forma como trataram os Negros ou pelos nazistas para o que diz respeito aos judeus. Nas críticas que alguns autores têm formulados sobre a sociobiologia, dois medos são constantemente apresentadas: em primeiro lugar, se demonstramos que um comportamento bárbaro tem uma base biológica, isto parece o justificar; segundo, se demonstramos que um comportamento tem uma base genética, pode parecer inútil, vão, querer mudá-lo.

Na minha opinião, esses dois medos são infundados. Em relação ao primeiro, podemos tentar entender como um traço apareceu, independentemente do julgamento que temos dele. A maioria dos livros que analisam as motivações dos assassinos são escritos não para justificar o assassinato, mas para entender as suas causas, a fim de preveni-lo. No que diz respeito ao segundo, não somos escravos das características que adquirimos durante a evolução, nem daquelas que adquirimos geneticamente. Nossa civilização atual concegue perfeitamente neutralizar comportamentos arcaicos, como o infanticídio. Um dos principais objetivos da medicina moderna é impedir os efeitos prejudiciais dos nossos genes e dos micróbios patógenos, embora a ciência nos mostre que os mesmos genes e micróbios tendem naturalmente a nos matar. Assim provar que geneticamente, a prática da infibulação é vantajoso para os machos que a impõem não significa que devemos desistir de a combater só porque esta luta, portanto, já não teria sentido. Nós a condenamos porque estimamos que a mutilação de uma pessoa por uma outra é uma prática eticamente indefensável.

A sociobiologia pode ser útil para entender a origem evolutiva de certos comportamentos sociais humanos, mas esse tipo de abordagem também tem limites. Não podemos reduzir todas as atividades humanas ao único propósito de garantir o máximo de descendentes. A partir do momento em que a civilização e as práticas culturais foram firmemente estabelecidas, os comportamentos responderam a novos objetivos. Hoje, por exemplo, muitas pessoas questionam o fato de ter filhos e muitas decidem dedicar seu tempo e sua energia a outras atividades. Os raciocínios baseados na evolução tem sobretudo o interesso de possibilitar a compreensão da origem de certos comportamentos sociais humanos; no entanto, eles não são a única compreensão possível da forma atual desses comportamentos.

Se fomos moldados, como os outros animais, pelos processos que nos levam a ganhar no jogo da evolução deixando um máximo de descendentes, ao ponto de ainda estarmos marcados em muitos níveis, no entanto temos inventado objetivos éticos, os quais podem às vezes entrar em conflito com os objetivos originalmente ditados pelas nossas estratégias evolutivas. Colocar o problema da escolha entre esses diferentes objetivos é uma das características que mais nos distinguem mais radicalmente dos outros animais.

Jared Diamond, O terceiro chimpanzé (1992).

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