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O acendedor de lampiões

Género, moda e beleza: podemos sair da alienação?

8 Mars 2026 , Rédigé par David Brites Publié dans #Sociedade, #Género

A mulher-objeto: a sua desumanização?

Em Setembro de 2020, o mundo escolar francês conheceu uma onda de protestos vinda de raparigas de muitos escolas do segundo grau pelo país. O motivo: a adopção ou a estrita aplicação por certos estabelecimentos de ensino de regulamentos inteiros bastante intrusivos em relação aos vestidos das raparigas. « Cada um pode entender que não se chega à escola vestido de uma maneira republicana », até declarou, numa estação de rádio, em 21 de Setembro de 2020, o então ministro da Educação. Decotes, saias ou shorts curtos, roupas rasgadas, piercings e tatuagens visíveis, t-shirts sem sutiã, crop tops (deixando ver o umbigo) foram o alvo do ministério e das direções escolares... Ou seja, quase só as roupas das raparigas.

Qualquer sejam as alturas, o corpo da mulher e as suas roupas parecem ter sido, por graus diversos, objetos de controlo da sociedade. Hoje em dia ainda, a questão da sexualização impõe-se (somente) às mulheres, inclusive  às adolescentes, sem no entanto questionar o olhar predador dos homens este mesmo olhar que, precisamente, sexualiza o corpo das mulheres de maneira sistemática, o objetiza, o coisifia, ao contrário do corpo dos homens. Pelo contrário, o vela islâmico (desde uma lei francesa de 2004), ou ainda as saias longas com os ortódoxos de toda religião, são denunciados, proibidos nos estabelecimentos públicos, desta vez em nome de uma liberdade das mulheres que as mesmas não seriam capazes de apropriar-se sozinhas. Aos dois extremos, com as adultas como com as menores, o diktat sobre o parecer das mulheres permanece.

A polémica francesa de Setembro de 2020 sobre os vestidos supostamente « provocantes » faz esquecer uma outra questão que é a do diktat da moda, da influência das grandes marcas de roupas, dos imperativos relativos aos padrões de beleza ditos femininos. Esses mesmos nos parecem hoje em dia « naturais » mas que relevam, contudo, de uma construção mental forjada ao longo dos séculos XIX e XX. Esses assuntos não são anódinos, pois as mulheres são também submetidas, a temática não é nova, a uma diversidade de normas sociais que dizem como elas devem ser e estar, e finalmente qual é o lugar delas na sociedade, sobre quais assuntos elas são legítimas (ou não) de falar, que áreas elas podem (ou não) investir, e essas normas determinam a própria noção de feminidade. Neste sistema, o que a socióloga e feminista britânica Angela Mc Robbie chama o « complexo moda-beleza » tem obviamente um papel decisivo, e participa amplamente à alienação coletiva, dos homens como das mulheres.

Em muitos aspetos, a sociedade ocidental pretende-se universalista e profundamente igualitária. Entre as nações europeias, a francesa é provavelmente aquela que mais revindica esta dimensão universal, na promoção dos seus valores e da sua cultura, em particular desde 1789.  Problema, foi erguido em único representante desta universalidade o homem branco, adulto e válido. O resto é apenas acessórioum acrescento generoso aceitado pelo homem « universal ». Assim, só para mencionar um ou dois exemplos ilustrativos, quando os homens adultos beneficiam do direito de votar ao sufrágio direto, fala-se de « sufrágio universal direto », enquanto apenas a metade da população adulta é então tratada; e quando as mulheres ganham o mesmo direito, nenhum « sufrágio universal direto », apenas um « direito de votar concedido às mulheres ». Quando a « seleção de futebola » (masculina, claro) joga, fala-se da Copa do Mundo ou do Euro, mas para o outro sexo, acrescenta-se que trata-se da Copa do Mundo feminina. Quando autoras escrevem livros, fala-se de « literatura feminina »; mas quando Victor Hugo, Eça de Queirós ou Jorge Amado escrevem, é apenas literatura.

Em países onde o valor igualitário, onde a noção de universalismo é tão forte, tão omnipresente na retórica política, e isto desde o século XIX, a associação mental entre masculino e universal (que traduz-se na escritura e na língua pelo fato que o masculino domina o feminino em caso de plural, e pela ideia segundo a qual o masculino é a marca do neutro) é um escolho notável no longo caminho para a igualdade de género. Podemos lembrar esta frase emblemática do antropólogo e etnólogo francês Claude Lévi-Strauss (1908-2009), no seu famoso Tristes Trópicos (1955), quando ele descreve a vida de uma tribo bororo, no Brasil: « A aldeia inteira foi-se embora o dia seguinte em umas trinta pirogas, nos deixando sozinhos com as mulheres e as crianças nas casas abandonadas. » Seria uma ilusão pensar que este tipo de sexismo ordinário é caduco. O fundo antropológico desta visão das coisas é muito antigo, pois logo no Antigo Testamunho, as personagens femininas com um papel ativo são raras (ainda mais se comparamos o números com o dos homens que têm um papel central no texto bíblico), e elas são apenas, muitas vezes, uma variável de ajustamento entre outras, um bem quase equivalente às crianças, aos móveis, ao gado. Logo na Génese, a mulher, Eva, só vem depois de Adão, e é suposta vir de « uma das suas costelas ». Como não pensar que todo esse dado antropológico, essa base de valores e de crenças que a nossa civilização leva há séculos, não teve um impacto decisivo na invisibilização das mulheres e na ideia que elas são só ai para servir e ajudar os homens?

Perfeita ilustração deste fenômeno de invisibilização: no meio do século XX, o Ocidente (e as suas excrescências, as classes burgueses e médias ocidentalizadas pelo mundo) viu surgir um novo género literário e artístico, a banda desenhada, o qual foi muito tempo caracterizado pela ausência quase total das mulheres nas narrações. Em As aventuras de Tintim, em Lucky Luke, em Astérix e Obélix, quase nenhuma mulher (excepto raras excepções). E as poucas vezes que vemos umas, aparecem, na maioria das vezes, ou histéricas, ou como figuras de sedução (por exemplo Falbala, a linda loura da aldeia gaulesa). Em Blake e Mortimer, as mulheres são totalmente ausentes dos primeiros volumes, não só como personagens centrais, mas até a sua simples silhueta é quase invisível ao longo das histórias. Como o escriviu o ativista feminista norte-americano John Stoltenberg na participação a uma coleção de artigos chamada For Men Against Sexism (1977) : « Em regime patriarcal, os homens são os juízes da identidade para os homens como para as mulheres, porque a norma cultural da identidade humana é, por definição, a identidade masculina a masculinidade. E em regime partiarcal, a norma cultural da identidade masculina rima com poder, prestígio, privilégio, e direitos sobre e contra a classe das mulheres. Isto é que é a masculinidade. Não é nada mais. » Dito de uma outra maneira, nas sociedades ocidentais (e as suas excrescências pelo planeta), os homens (em particular os homens brancos, adultos, válidos) encarnam a figura do « universal ». E nos seus inícios, o mundo da banda desenhada tal como o dos primeiros desenhos animados fez-se perfeitamente o eco desta visão das coisas.

O topo foi provavelmente atingido com Os Estrumpfes, aqueles pequenos seres azuis, uma centena, que vêem um dia chegar na aldeia a Estrumpfina; a mesma, podemos o lembrar, não só é inicialmente a obra do mau Gargamel cujo objetivo é atrair e prender os Estrumpfes (pequena piscadela a Eva que simboliza a tentação que conduz ao Mal), mas sobretudo, ela transforma-se, após uma pequena cirurgia estética, realizada pelo Grande Estrumpfe, en loira gostosa para quem todos os Estrumfes se apaixonam... Em muitos aspetos, as bandas desenhadas do meio do século XX são ilustrativas de o ambiente daquela época. E é com a herança deste imaginário profundamente misógino o que não significa obrigatoriamente malévolo, ai está a dificuldade que as mulheres (e os homens) devem compor hoje em dia. Quando elas são representadas, as mulheres são ai para agradar, para seduzir, para estar no parecer e na atração, e para apoiar os homens nas suas aventuras, no seu trabalho, na sua obra, nos seus projetos.

Extrato do volume 3 de Os Estrumpfes, publicado em 1967. Aqui, podemos ver a primeira aparição da Estrumpfina depois de o Grande Estrumpfe a ter « retocado », supostamente com uma cirurgia estética.

Extrato do volume 3 de Os Estrumpfes, publicado em 1967. Aqui, podemos ver a primeira aparição da Estrumpfina depois de o Grande Estrumpfe a ter « retocado », supostamente com uma cirurgia estética.

Estátua numa praça pública, Berlim (Alemanha).

A mulher ideal, « livre » mas no seu lugar: numa feminidade centrada na ornamento e no lar

Em Beleza fatal Os novos rostos de uma alienação feminina (Beauté fatale Les nouveaux visages d'une aliénation féminine, em francês), publicado em 2015, a jornalista e ensaísta suíça Mona Chollet explica: « Não podemos criticar com eficiência a redução das mulheres à sua aparência sem examinar todas as razões que fazem que elas andam neste condicionamento; sem admitir as seduções reais sobre as quais ele apoia-se. Trata-se talvez bem ai de um objeto de estudo que obriga a produzir uma radicalidade matizada. A nossa hipótese será que, se o "complexo moda-beleza", como o chamou a feminista britânica Angela Mc Robbie, conheceu uma tal prosperidade, é porque ele é o único, na sociedade, a tomar a sério uma certa cultura feminina. » Ela acrescenta ainda, sobre este último ponto: « De geração em geração, as mulheres constituirem-se de fato, bem contra a sua vontade, uma cultura partilhada, oficiosa, ilegítima. Alguns objetos de preocupação lhes são atribuidos pela ordem social ou foram levados à sua atenção pela sua condição de dominadas. » De uma certa maneira, a impensa feminina apropriou-se perfeitamente esta ideia, desenvolvendo um tipo de jornalismo destinada apenas às mulheres.

Contudo, alguns códigos que definem esta « cultura feminina » não são tão naturais como isso. Logo na Antiguidade, os costumes no assunto mudaram muito de uma região para uma outra, de uma altura para uma outra. Sob o Egipto antigo por exemplo, a epilação tinha a ver tanto com os homens como com as mulheres, e relevava de um ritual de pureza, tal como a certas épocas nas civilizações grega e romana; no IIndo milenário antes de J.-C., as civilizações da Mesopotâmia, pelo contrário, multiplicam as representações iconográficas de homens levando uma barba crescida, penteada, um fato correlado naquela altura com um enfraquecimento do estatuto das mulheres nas sociedades da região. Na Europa ocidental, é só a partir do século XVI que a barba e o bigode voltam em força, no tempo do Renascimento, do humanismo, da Reforma e da Contra-Reforma. No modelo de muitos filósofos da Grécia clássica, a barba torna-se então um símbolo de virilidade, de sabedoria e de poder; e a medida que o estatuto do homem é definido pela sua lã, os padrões femininos de beleza representando uma mulher glabra, com um tez de porcelana, mulciplicam-se. Pelo contrário, o pelo feminino é caçado. Camada no queixo, no bigode, nas têmporas, são alvos; os peles nas axilas, nas pernas e púbicos, que não vemos, ainda são poupados. Mas as cremes depilatórias desenvolvem-se logo no século XIX, e com o século XX, a moda evolui rapidamente, deixando descobertos ombros e barrigas das pernas, e o sucesso dos lazeres, a prática do banho de mar, sobretudo após as primeiras férias pagas, e mais tarde o desenvolvimento laborioso do desporte feminino, vão participar deste fenômeno: as áreas em questão onde epila-se estendem-se gradualmente, a medida que o corpo das mulheres se desnudam. As primeiras máquinas de barbear descartáveis aparecem, a publicidade para produtos despilatórios conhece um grande sucesso, em particular nas revistas femininas. Higienismo, desodorização, desanimalização: o rolo compressor está em marcha. A injunção em massa à epilação sistemática das pernas chega finalmente após a Segunda Guerra mundial.

Com base o trabalho da socióloga norte-americana Laurie Essig (American Plastic, Credit Cards, and our Quest for Perfection, 2010), Mona Chollet lembra ainda que as mulheres têm uma história particular na sua relação ao consumo. « As mulheres brancas da classe média foram as primeiras a ser livres do dever de produção para ir fazer shopping », escreve ela, em referência ao desenvolvimento e à democratização dos contraceptivos após a Segunda Guerra mundial. « Essas mulheres pararam de fabricar sabão e as roupas em casa: elas foram nas grandes lojas, aqueles palácios de desejo, e iniciaram esta revolução hoje conhecida sob o nome de "sociedade de consumo". Logo no início, o mercado fez delas os seus alvos privilegiados, lhes vendando beleza e bem-estar. » O fenômeno, a literatura o mostrou bem, já iniciou no final do século XIX, como o ilustrou O paraíso das Damas, obra publicada em 1883 e no qual Émile Zola descreve grandes lojas amplamente frequentadas por mulheres explicitamente alvos. Mas tem então apenas a ver, pelo menos até 1914, com uma burguesia que não é representativa do povo; após a Segunda Guerra mundial e o surgimento da classe média, que acede então rapidamente à sociedade de consumo (A sociedade de consumo na Europa: crônica de uma construção sociocultural não-sustentável), todas as mulheres podem agora sonhar aceder aos produtos de beleza e de moda que promovem com tantos esforços a televisão nascente e a publicidade em desenvolvimento. Enquanto a Primeira e a Segunda Guerras mundiais participaram a que as mulheres ocupam empregos de homens (os homens sendo na frente), o imediate período pós-guerra viu finalmente a imagem da dona da casa erigida em ideal. Com a ajuda da tecnologia electrodoméstica, a « mulher moderna » que acedeu à classe média é teoricamente libertada das tarefas da casa as mais pesadas, e pode portanto consagrar-se à decoração do lar e à sua própria aparência. Em Ain't I a Woman? (1981), a autora norte-americana (feminista e afrofeminista) bell hooks descreve este fenômeno, e as suas palavras, que têm a ver com os Estados Unidos, podem aplicar-se em muitos pontos à Europa ocidental, e até às burguesias latino-americanas do período pós-guerra: « Na década de 1950, [...] as mulheres brancas como negras sofriam a propaganda sem fim que as encorajava a acreditar que o lugar de uma mulher era no lar que a sua realização dependia da sua capacidade a achar um bom marido e a fundar uma família. [...] A mulher que trabalhava, seja ela negra ou branca, achava necessária de provar a sua feminidade. Ela desenvolvia muitas vezes dois tipos de comportamentos: confiante e independente no trabalho, ela era passiva e afável uma vez regressada em casa. »

O fenômeno até acentuou-se ainda a partir da década de 1980, com uma conjunção complexa de liberalização do setor audiovisual, de aceleração e de desenvolvimento (ainda mais marcado do que antes) da publicidade, e de ausência de reflexão profunda sobre o assunto da moda nos meios feministas. O julgamento (crítico) sistemático que é imposto às mulheres sobre o seu próprio corpo, a sua submissão a normas sempre mais severas (e muitas vezes inatingíveis) são típicas do que a ensaísta norte americana Susan Faludi identificou, logo em 1991 (Backlash. A guerra fria contra as mulheres), como o « retrocesso » das grandes vitórias feministas (cívicas, sociais, sexuais). Retrocesso que, na década de 1980, seguiu a destabilização provocada no final da década de 1960 pela « segunda onda » feminista e a revolução sexual que a acompanhou. « O corpo, escreve Mona Chollet, permitiu recuperar pelas alças aquelas que, de outra maneira, tendo conquistado pelo menos em teoria o controlo da sua fecondidade e a independência económica, poderiam ter-se pensado livre do que querem. Pois elas tinham escapado às maternidades subidas e ao confinamento doméstico, a ordem social reconstituiu-se espontaneamento construindo a cerca delas uma prisão imaterial. As pressões sobre o seu físico, o olhar sobre elas são um meio sonhado de as conter, de as controlar. Estas preocupações lhes fazer perder um tempo, uma energia e um dinheiro consideráveis; elas lhes deixam num estado de insegurança psíquica e de subordenação que lhes impede de dar a plena medida das suas capacidades e de aproveitar sem restrição de uma liberdade tão dificilmente adquirida. Além disso, elas mesmas sentem-se culpadas da transgressão que constitui a sua presença nas áreas onde elas foram muito tempo excluidas; elas têm tendência, para compensar, para tranquilizar os homens ou para tranquilizar-se eles mesmas sobre o seu poder de sedução, a superar-se no cuidado levado sobre a sua aparência. »

Este fenômeno de apagamento é óbvio para muitas mulheres que enfrentam o orgulho egocêntrico dos homens no mundo do trabalho. As mulheres são vistas (e vezes demais vêem-se) como ilegítimas slogo que elas ocupam uma carga que induz responsabilidade, e elas devem redobrar o seu esforço em relação a um homem para justificar estar no seu lugar. Igualmente em reunião coletiva de trabalho, onde notaremos uma maior tendência dos homens a interromper as mulher, a desvalorizar a sua palavra pelo único fato que ela saiu da boca de uma mulher. Uma tal situação explica-se pelas diferenças na educação que damos aos rapazes e às raparigas, mas não só (Será que as meninas devem tornar-se princesas e os meninos cavaleiros?). A importância dada à indústria da moda e da beleza na nossa sociedade é tanto determinante, como a análisa muito bem, ainda, Mona Chollet. « Podemos distinguir três conjuntos de valores que são objeto desta recuperação comercial. Primeiro, a preocupação da aparência, o cuidado dado à escolha das roupas, à manutenção e à ornamentação do corpo. Depois, o gosto do detalhe, do minúsculo, do supérfluo, a sensibilidade aos objetos, a capacidade a os investir de uma dimensão quase metafísica. E, para acabar, o gosto de uma vida fora do mundo, centrada no lar, na intimidade, o círculo dos próximos, mas também atenta à natureza, à passagem das temporadas, com o que isto supõe de indiferença, pelo menos momentánea, em relação à vida social e política. Muitas vezes, aqueles três conjuntos entrelaçam-se ao ponto de tornar-se indistintos. » Esta recuperação comercial tem consequências sobre o desenvolvimento e a felicidade das mulheres, mas também no plano democrático, pois a « indiferença à vida social e política » induz um apagamento « natural » das mulheres nos espaços de debate público e de decisão. Fenômeno óbvio quando se observa globalmente o mundo político, ou mesmo sindical, inclusive em setores profissionais onde no entanto dominam as mulheres, mas onde a liderança das lutas e do ativismo é marcada pela presença de uma maioria de homens. Quando a mulher sai do espaço intimista do lar, é apenas, no melhor dos casos, para investir uma excrescência deste espaço, ou seja, a área profissional, onde a sua postura não deve ultrapassar os seus interesses estritamente pessoais. Quem envolve-se na defesa dos interesses coletivos, são os homens. Assim, ao género masculino que confisca ao seu benefício a atividade inteletual, a participação aos assuntos do mundo, a expertisa, a liderança, responde um suposto ideal feminino de uma vida unicamente sensual e hedonista, virada em direção de si mesmo e do seu lar.

Lentemente mas seguramente, normas que parecem hoje evidências, certezas, a « normalidade », impuseram-se (aos olhos de todas e todos, das mulheres como dos homens), incentivando o género feminino a um consumo em massa de produtos de beleza e de epilação que representa não só um custo significativo (e a compra responde muitas vezes a uma pressão social, não a uma escolha tomada em toda liberdade, sem coerção do olhar de outrem), como também uma grande perda de tempo. Já amplamente ocupada nas tarefas domésticas, na criação das crianças, na carga mental da manutenção do lar, tendo muitas vezes que gerir estas atividades todas com uma atividade profissional sob-remunerada, as mulheres devem ainda mais apresentar ao mundo um visual apreciável, a melhor imagem possível delas mesmas. No seu ensaio, Mona Chollet denuncia o diktat higienista que impõe-se aos indivíduos da nossa sociedade, e particularmente às mulheres. « A atual frenesia epilatória oferece um retrato comovente deste Sísifo humano batalhando sem descanso contra os signos da sua própria animalidade e deixando ai fortunas que fazem prosperar toda uma indústria: a guerra que conduzimos à nossa animalidade é tão lucrativa como desesperada... » Muitos homens de vinte ou trinte anos nunca viram pelos no sexo das suas parceiras femininas. « Para a sua geração, acrescenta ela, a norma da epilação integral impôs-se. » E os motivos a justificando são tão numerosas como não naturais: os pelos numa mulher, « não é feminino », « não é limpo », etc. Igual para os cheiros: uma mulher com cheiro humano, é uma mulher perto demais do seu estado natural; no pior dos casos, uma mulher não tem cheiro, e no melhor dos casos, ele leva o cheiro de um perfumo Dior ou Chanel.

Representação do que parece ser um grupo de mulheres numa cena da vida quotidiana, no sítio arqueológico da cidade romana de Cartago, na Tunísia.

Representação do que parece ser um grupo de mulheres numa cena da vida quotidiana, no sítio arqueológico da cidade romana de Cartago, na Tunísia.

Qual é o símbolo da bolsa feminina?

Um objeto do nosso dia a dia parece bem inofensivo, é a bolsa feminina. Inofensivo, e bem útil para os (e sobretudo as) que o usam diariamente. Esse acessório de moda, que permite levar muitos objetos, até era qualificado pela jornalista francesa Thuy-Diep Nguyen, num artigo publicado em 2011 em Challenges, de « mais íntimo companheiro da vida » das mulheres. Contudo, lembra ela no mesmo artigo: « Dentro, quase nada ». Uma carteira, um telefone, chaves, uma fatura, um brilho labial... « Meu dia. Minha vida. Minha bolsa. » Assim acabava ela a sua lista.

Sim, sem dúvida, a bolsa feminina tem um lugar central na vida das mulheres, pelo menos no que tem a ver o Ocidento. É quase exclusivamente levado por mulheres. No seu ensaio já mencionado, Mona Chollet lembra que, em 2007, tratava-se do produto que oferecia as margens de lucros as mais confortáveis, e que representava o setor da moda com o mais forte crescimento. A bolsa de mão é quase unicamente usado por mulheres. O seu conteúdo e até o seu aspeto dizem certamente muito sobre as que o levam. É um objeto muito pessoal, uma « casa miniatura », uma « bolha de intimidade nómada », escreve Mona Chollet, a qual acrescenta ainda: « É o lugar de uma tensão excitante entre desejo de esconder e desejo de mostrar. Através a escolha do modelo e o que ela arruma dentro, a sua proprietária compõe um retrato chinês de ela mesma. » Com a sua « função de dissimulação », o imaginário coletivo quer que os homens não se permitem olhar dentro, por respeito e por pudor.

Em paralele à subida das revindicações para emancipar as mulheres dos acessórios e dos hábitos que compõem o kit da feminilidade, por exemplo sapatos de salto alto, maquilhagem ou ainda a epilação, é preciso constatar o automatismo com o qual muitras levam com elas a bolsa, até quando não é absolumentamente indispensável, quase a cada saída. Para ir buscar pão, para ir no cinema, para ir pegar as crianças à escola, para ir beber um café com amigos, para qualquer coisa, leva-se a bolsa. No entanto, muitas vezes, a maioria das coisas essenciais no momento poderiam ter sido levados numa bolsa de calça ou na mão.

Contudo, é preciso colocar em algum lugar o bilhete de identidade, o título de transporte, o porte-moeda, o telefone, e outras chaves de apartamento, pode-se responder. E é verdade, sempre pode-se achar uma boa razão de levar a sua bolsa. No entanto, os homens não têm bolsa feminina. O postulado aqui é que, se as mulheres obrigam-se a ter uma bolsa com elas, e não os homens, quer dizer que o objeto estabelece um diferenciamento baseado no género, como muitas roupas e outros artigos de moda. De uma certa maneira, a bolsa de mão é o marcador inconsciente da dupla dominação sobre as mulheres dominação do patriarcado, e dominação do mercado.

Uma publicidade da marca de luxo Hermès.

Levar uma bolsa feminina é muitas vezes justificado pela existência de muitos acessórios que são tornados necessários pelas normas de beleza impostas (especificamente) às mulheres pela sociedade, em primeiro lugar em termos de maquilhagem. Portanto é preciso arrumar em algum lugar todas as pequenas coisas que nos permitem respeitar os critérios de belezas habituais quanto mais não seja um lápis dos olhos. Obviamente, é fácil para os homens não ter bolsa de mão, logo que não se leva objetos relativamente pouco indispensáveis, por exemplo o que é necessário para o maquilhagem. Além disso, incontestavelmente, a bolsa feminina teve, desde o século XIX e os inícios da moda contemporânea, um lugar central. Foi erigido como um apêndice quase natural do corpo feminino, como um discreto tesouro que contem as ferramentas segredas que permitem às mulheres ser bonitas (para um homem, ou para todos). A bolsa participou amplamente ao processo moderno de objetização, de coisificação das mulheres, que fez delas seres passivos, seres-objetos a valorizar, que devem fazer-se bonitas para seduzir os homens. Não só porque contem as ferramentas necessárias a uma beleza artificialmente construida, mas também porque é considerado como um objeto de embelecimento em si, um tipo de guirlanda de decoração, sem a qual a árvore seria incompleta. As publicidades para as bolsas femininas, assim muito similares aos anúncios para os perfumes, valorizam todos os estereótipos da mulher como ela « deve ser », fina, elegante, muda, se for possível de vestido e de sapatos de salto alto. E às vezes muito animalizada.

O assunto aqui não é dizer que uma feminista não deve levar bolsa de mão, nem que uma mulher com bolsa é necessariamente em contradição com os seus valores feministas. Tal como os biquínis, os lenços de cabeça, a maquilhagem, os sapatos de salto alto, as saias (longas ou curtas) e as calças, as mulheres devem ser livres de vestir, ou de não vestir, o que elas querem. Tal como os homens deveriam ser, numa sociedade desembaraçada dos seus preconceitos de género... É preciso questionar a bolsa feminina como diktat das normas de beleza induzidas pela nossa educação, pela publicidade, pela moda e por muitas outras coisas tal como é necessário, numa abordagem feminista sincera, questionar-se sobre a relevância ou a dimensão « natural » da epilação, do culto da juventude, do dogma da magreza, ou ainda do imperativo de maquilhar-se diariamente.

Da mesma forma, convem interrogar-se sobre o processo de especialização que parece inerente à indústria do vestuário feminino. Muitas mulheres as que não são em causa darão-nos licença para a dimensão generalizante do que escrevemos aqui tpem vários pares de sapatos, em função das ocasiões e das temporadas (muito mais do que os homens, em geral), várias bolsas de mão, muitos tipos de casacos... A própria Mona Chollet, no seu ensaio, evoca o laço particular que as revistas femininas e o complexo moda-beleza tecerem entre a injunção feita às mulheres de concentrar-se na área doméstica, o lar, a intimidade, e a atenção levada ao ritmo das temporadas. Tudo isso, como o dissemos mais cedo, em ruptura com a vida social e política, com o mundo extra-doméstico, com a vida da Cidade, da comunidade.

Não se diz aqui que uma mulher não deve ter vários sapatos, que ela não deve fazer epilação, maquilhar-se, etc.; o objetivo é questionar-se sobre a diferença de grau entre homens e mulheres. E às e aos que duvidam dessa realidade, basta ir comparar o tamanho dos corredores e prateleiros das lojas de roupas e sapatos. O princípio de diferenciação dos bens é uma estratégia agora famosa para incentivar o consumo, mesmo quando a utilidade do novo produto é de fato totalmente marginal em relação ao existante. Além do seu papel protetor, a roupa exprime ou resforça a identidade pessoal e inscreve o indivíduo num grupo social por movimentos de distinção ou de imitação. E as marcas escolherem, precisamente, estratégias adaptativas na base do género. Aliás, elas o fazem muito precocemente, pois qualquer pai ou mãe já pode ter visto a dificuldade de sair da alternativa entre azul e rosa quando se trata de comprar um vestido para sua criança, ou até para o seu bebé.

Marcha contra os feminicídios e as violências contra as mulheres, em Paris (França) em 23 de Novembro de 2019.

Marcha contra os feminicídios e as violências contra as mulheres, em Paris (França) em 23 de Novembro de 2019.

A importância de desconstruir as certezas a cerca da binaridade masculino-feminino, para sair da alienação

O ornamento, os vestidos, a maneira de vestir-se, de maquilhar-se, de pentear-se, faz parte de nós. A preocupação dos detalhes, do infinitamente pequeno, do acessório, é uma sorte, reconhece Mona Chollet; contudo, ela deplora o fato que ela é reapropriada pela área mercantil. « Porque elas foram reduzidas à manutenção dos objetos e dos corpos, mas também ao papel do "sexo bonito", moldando com cuidado a sua aparência, mais à vontade do que a maioria dos homens na escolha e na disposição dos tecidos, das cores, dos ornamentos, conservaram uma relação ao mundo mais rico e mais justo do que a relação dominante, escreve ela no seu ensaio. O complexo moda-beleza, as bombardeando de roupas, de mechilas, de sapatos, de jóias, de cosméticas, de bugigangas, desvia portanto ao seu benefício uma atitude justa; mas ele a desvirtua, a condenando a só poder exprimir-se sob o regime do consumo. » O ideal masculino, pelo contrário, supõe desde o século XIX um homem vestido de maneira neutra, de fato e gravata, em colarinho branco quando é quadro, em colarinho azul quando é operário. « Os homens, continua ela, entretêm com a ornamentação uma relação muito mais neutra e conformo ao prestígio da abstração. » O utilitário torna-se o único fim. Enquanto durante séculos, as elites europeias gostavam mostrar a magnificência e o refinamento das suas toaletes, após 1789, o triunfo da razão e a rejeição do luxo de uma nobreza em via de decadência revolucionaram esses hábitos. Agora, é preciso apenas uma « roupa correcta », um conjunto que encarna a racionalidade abstrata e calculadora. Para trabalhar, a roupa deve ser « purificada », parecer sério. A mulher, que não trabalha, pode portanto concentrar-se na sua aparência, na sua ornamentação. Por isso, mesmo quando elas investem empregos até então ocupados pelos homens, é exigido delas o mínimo de feminidade « requerido ».

O nosso parecer é constituido da nossa personalidade. O nosso ser não depende só da nossa personalidade, mas também da nossa maneira de nos ver, e da maneira como os outros nos vêem. E em uma sociedade onde reina a imagem, ainda mais num mundo dominado pelas redes sociais virtuais onde os textos reduzam-se sempre mais ao benefício das fotos, omnipresentes, vemos bem que as forças do mercado souberam perfeitamente nos influenciar, para nos impor o que percebemos agora como evidências. Como se uma mulher sem pêlo fosse uma mulher « ao natural », por exemplo. E esta alienação é, claro, a duplo sentido, pois até os homens não concebem mais a beleza feminina no seu verdadeiro estado natural, mas a julgam à luz dos padrões dictados ao longo das últimas décadas.

Essas forças do mercado souberam instrumentalizar as normas impostas pela sociedade patriarcal para vender os seus produtos inclusive a bolsa de mão. Para convencer-se disso, basta lembrar a grande jogada do anunciante Edward Bernays, pioneiro da comunicação nos Estados-Unidos de América, que conseguiu servir-se dos movimentos feministas do seu tempo. Em 1929, a American Tobacco Company decidiu atacar o tabu que proibia fumar em público às mulheres  um tabu que, teoricamente, retirava à companhia um metade dos seus benefícios. A sociedade chamou então Bernays, sobrinho de Sigmund Freud, influenciado pelos progressos da psicanálisa, da qual ele lembrou-se que o cigarro seria um símbolo fálico representando o poder sexual masculino. O mesmo ano, quando houve a parada anual de Páscoa na cidade de Nova-Iorque, um grupo de jovens mulheres ativistas, pela iniciativa de Bernays, sairam e fumaram cigarros, declarando depois, à imprensa que lhes fez perguntas, que elas tinham acendido assim as « torchas da liberdade » (o slogan tem provavelmente sido inventado pelo próprio anunciante). Alguns anos mais tarde, num outro mercado também muito ilustrativo, as publicidades após-guerra promoverem a aquisição de produtos eletrodomésticos, supostos « libertar » a mulher das suas tarefas domésticas. Longe de acompanhar as dinâmicas sociais ou as revindicações emancipadores e egalitárias, o capitalismo sabe no entanto adaptar-se para aproveitar um máximo de benefícios.

Exemplo emblemático mas não único, a bolsa de mão soube impor-se às mulheres, não só pelas publicidades, mas também pela dimensão material: os bolsas são geralmente menores nas calças para mulheres do que nas dos homens, tornados ridiculosamente inúteis logo que não podem conter qualquer coisa. Essa caraterística não é por acaso: a roupa deve estar seguir as curvas do corpo para valorizar a mulher, sem nada para perturbar o visual. Até os casacos para mulher são, vezes demais, sem bolsas interiores, enquanto os dos homens têm quase sistematicamente. Mesmo se as mulheres quisessem não ter bolsas de mão, seria bem difícil. De uma certa maneira, as mulheres são obrigadas materialmente a ter um.

A subida dos valores igualitários e feministas conduz gradualmente os atores do mercado a mudar a sua estratégia. O desafio é claro: de jeito nenhum, a marcha pela igualdade deve traduzir-se por uma redução do consumo. É desigual o fato de somente as mulheres serem submetidas à ditadura da moda? Então toda gente será submetido a ela! Ainda não é a norma, longe disso, mas todavia é a tendência. Os homens tornam-se portanto alvos do mercado das mechilas, da epilação, ou até, mais raramente, do maquilhagem.

Cada setor da vida cultural, social, política, económica, é convidado a questionar-se sobre os mecanismos de perpetuação das desigualdades, sejam elas sexuais, raciais ou sociais. Questionar o mundo da moda e assuntos ligados à sexualização e à objetização/coisificação dos corpos ao serviço de interesses financeiros, é determinante, e não impede, em paralele, de trabalhar sobre assuntos tão importantes como as violências e os feminicídios, ou ainda a igualdade salarial. Tal como o mundo do cinema questiona as representações e a cultura do silêncio que muito tempo prevaleceu ai. Tal como também os linguistas são convidados a questionar a língua, com a emergência do conceito de escritura inclusiva. E tal como cada um de nós é convidado a partilhar melhor a carga mental na casa, ou ainda a refletir sobre a dimensão de género na escolha dos brinquedos para as nossas crianças. Para construir-se como cidadãs e cidadãos conscientes e assegurar a independência das nossas escolhas, é também trabalhando sobre o que, ontem ainda, parecia como evidências imutáveis, que poderemos avançar para mais igualdade e justiça.

Obra exposta em 2012 na Berlinische Galerie, lugar de exposição de arte contemporâneo em Berlim, na Alemanha.

Obra exposta em 2012 na Berlinische Galerie, lugar de exposição de arte contemporâneo em Berlim, na Alemanha.

No extrato seguinte, tirado do livro O Paraíso das Damas (Au Bonheur des Dames, em francês) publicado em 1883, Émile Zola, través o personagem de Octave Mouret, apresenta os argumentos motivando o sucesso das grandes lojas, as quais, como a sua, desenvolvem-se no Paris do Segundo Império: Le Bon Marché (1852), Galeries du Louvre (1855), Printemps (1865), Grands magasins de la Paix (1869), La Samaritaine (1870), etc. Ele inicia o seu discurso lembrando que a criação da loja é « feita da carna e do sangue da mulher », o seu personagem declarando mesmo, numa revelação brutal: « Tenho a mulher, não me importa o resto! » E de fato, a dominação sobre as mulheres é central no seu pensamento.

Mouret [...] acabava de explicar o mecanismo do grande comércio moderno. Então, mais alto do que os fatos já dados, no topo, aparecia a exploração da mulher. Tudo conduzia ai, o capital constantemente renovelado, o sistema de amontoamente das mercadorias, o bom mercado que atraia, a marca [...] que tranquiliza. Era a mulher que as lojas discutiam-se pela concorrência, a mulher que eles tomavam na contínua armadilha das suas ocasiões, depois de as ter atordoadas a frente das suas prateleiras. Eles tinham acordado na sua carne novos desejos, [...] onde ela caia fatalente, cedando primeiro a cumpras de boa gestora doméstica, depois ganhada pela sua vaidade, depois devorada. [A] mulher era reina, adulada e lisonjeada nas suas fraquezas, cercada de atenções.

Ele lhe ergue um templo, a elogiava por uma legião de vendedores, criada o rito de um culto novo; ele só pensava em ela, procurava incansavelmente imaginar seduções maiores: e por trás dela, quando ele lhe tinha esvaziado a bolsa, ele estava cheio de desprezo do homem para quem uma amante acaba de fazer a burriça de dar-se. – Tenha portanto as mulheres, diz ele baixinho [...], rindo de um riso ousado, venderá o mundo!

Na passagem seguinte, ainda extrata do mesmo livro, Zola descreve o final de um dia de vendas-recorde:

E Mouret olhava sempre o seu povo de mulheres, no meio dessas fulgurações. As sombras obscuros tiravam-se com vigor nos fundos pálidos. Longas turbulências quebravam a multidão, a febre daquele dia de grande venda passava como um vertígio, rolante a ondulação desordonada das cabeças. Começava-se a sair, a pilhagem dos tecidos nos balcões, o ouro tocava nas caixas; enquanto a clientela, despojada, violada, ia-se por metade derrotada, com a volúpia saciada e a surda vergonha de um desejo contentado no fundo de um hotel suspeito. Era ele quem as possuiu desta maneira...

[Ele] as possuiu desta maneira [...] por o seu amontoamento contínuo de mercadorias, pela sua diminuição de preços [...], o seu cavalheirismo e a sua chamada. Ele tinha conquistada as próprias mães, reinava sobre todas com a brutalidade de um déspota, cujo capricho arruinava as famílias. [...] A sua criação trazia uma religião nova, as igrejas que desertava pouco a pouco a fé trémula eram substituidas pela sua tralha [...]. A mulher vinha passar com eles as horas vazias, as horas tremendas e preocupadas que vivia antigamente no fundo das capelas: despesa necessárias de paixão nervosa, uta renascente de um deus contra o marido, culto constantemente renovelado do corpo, com o além divino da beleza. [...] Ele as tinha aos seus pés [...] tal como um gado do qual ele tinha tirado a sua fortuna.

Émile Zola, O Paraíso das Damas (1883).

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