Israël, Gaza: ato terrorista ou de resistência, como qualificar os ataques do 7 de Outubro de 2023?
O dia 7 de Outubro de 2023 permanecerá como um dia histórico na memória coletiva dos Palestinianos e dos Israelenses. Naquele dia, uma ofensiva de soldados do ramo armado do Hamas operou por surpresa uma saída fora da faixa de Gaza, avançou vários kilómetros e tiveram o tempo, antes que o exército israelense recupera os territórios perdidos, de matar mais de mil pessoas e de raptar 250 reféns, entre os quais hoje em dia 123 foram libertados pelo Hamas ou recuperados pelo exército israelense, e 29 foram matados. A violência do ataque foi objeto de uma condenação importante (mas não unânime) a través o mundo, e sobretudo de uma grande solidariedade exprimida ao benefício do povo israelense, em particular da parte dos paises ocidentais. Desde então, Israel lançou uma ofensiva de massa sangrenta sobre a faixa de Gaza, enquanto na Jordânia, de forma mais discreta, os ataques contra os Palestinianos mulciplicam-se. Entretanto, em vários paises de Europa, em particular em França, no Reino-Unido, na Bélgica, na Irlândia, na Alemanha, ou de forma menos intensa na Itália e na Espanha, uma polémica forte nasceu a cerca da qualificação da ofensiva do Hamas – polémica levada sobretudo pela extrema-esquerda e uma parte da esquerda solidárias da causa palestinana. À expressão « ato terrorista », essa parte do palco político, tal como muitas associações, preferiram falar ou de « crimes de guerra ». Alguns até recontextualizaram os eventos em questão na história de opressão e de resistência do povo palestiniano.
Às 6h30 da manhã, em 7 de Outubro de 2023, o Hamas anunciou o início da sua operação, declarando ter atirado mais de 5 000 mísseis desde a faixa de Gaza contra Israel, em apenas vinte minutos; pelo menos cinco pessoas perderem então a vida. Mais ou menos 2 900 combatentes do Hamas infiltraram depois o território israelense desde Gaza, por pelos menos sete lugares diferentes (segundo o exército israelense), por meios muito diferentes (lanches rápidas, camiões, carrinhas, motos, escavadeiras, parapentes...), penetrando a cerca de separação. Quatro pequenas comunidades rurais israelenses são invadidas, tal como a cidade frontaleira de Sderot, duas bases militares desde a terra e o mar, o posto-fronteira de Erez, e várias localidades: Nahal Oz, Kfar Aza, Magen, Sufa, Be'eri. Muitos gravam (com o seu telefone ou câmeras acopladas ao corpo) o seu avanço e as suas exacções. Centenas de pessoas são assassinadas em pouas horas, casas incendiadas... Violações/estupros (incluindo em grupo) são provavelmente cometidos, como também mutilações, e mutilações sexuais. Menos de cinco horas após o início da ofensiva, combates são assinalados na base militar de Réïm; Tsahal, o exército israelense, retoma o controlo na mesmo dia. Entretando, muito ceda na manhã, o festival de música Nova em Réïm foi o lugar do massacre de pelo menos 270 pessoas, um fato muito chocante, tal como os massacres nos kibutz à volta da faixa de Gaza.
No fim do dia 7 de Outubro, 250 reféns (número confirmado pelo Hamas em 16 de Outubro) de várias nacionalidades e confissões, em maioria judeus e árabes israelenses, mas também pessoas do Nepal, das Filipinas, da Tailândia, da Argentina, da França e dos Estados-Unidos, foram raptados e conduzidos em Gaza. Segundo o Hamas, essas tomadas de reféns pretende esforçar o Estado hebreu a libertar os prisonneiros palestinianos, entre 5 e 6 000 pessoas detidas nas prisões israelenses. Finalmente, uma nota de United Nations Office for the Coordination of Humanitarian Affairs (OCHA), publicada em 31 de Outubro, menciona « mais ou menos 1 400 Israelenses e cidadãos estrangeiros matados em Israel, segundo as autoridades israelenses, a grande maioria em 7 de Outubro ».
As condenações foram rápidas e unânimes para denunciar a violência e o nível do massacre. Contudo, polémicas chegaram também imediatamente, em França por exemplo, porque o primeiro comunicado do movimento de esquerda radical La France Insoumise (LFI) não usava a palavra « terrorista » e, segundo uns ou outros, não condenava suficientemente a ação do Hamas. O dia a seguir, um segundo comunicado falava de um « ato terrorista », mas as críticas não pararam. Nos dias seguintes, os representantes de LFI recusaram-se a qualificar o Hamas de « organização terrorista », condenando os atos do Hamas mas a falar mais de uma « ofensiva armada » ou de « crimes de guerra ». Quanto ao líder do movimento, Jean-Luc Mélenchon, em 11 de Outubro num canal de notícias, ele explicou: « se aceitamos caraterizar como terrorista uma ação de guerra, estaríamos excluindo-la do direito internacional ». Dois movimentos de esquerda troskista aumentaram a polémica: o Novo Partido Anticapitalista (NPA) exprimiu o seu apoio à « ofensiva armada » do Hamas, qualificada de « revolta dos Palestinianos », de « operação de resistência »; e Revolução Permanente adoptou uma linha semelhante, apresentando o ataque do 7 de Outubro como um ato de « resistência armada », e uma análisa centrada na luta anticolonial e a dinámica de classes.
O ataque do Hamas em 7 de Outubro, « crimes de guerra » ou « atos terroristas »?
Começamos basicamente com a definição do terrorismo: prática de atos premeditados de violência dirigidos contra uma classe dominante, um grupo ou mesmo pessoas indeterminadas, com o objetivo de causar terror e fragilizar o poder estabelecido, de forma a tentar impor determinados objetivos, geralmente de ordem política. Em termos de direito internacional, a Assembleia geral das Nações Unidas definiu, em Janeiro de 2006 (resolução 60/43), os atos terroristas como « atos criminosos pretendidos ou calculados para provocar um estado de terror no público em geral, num grupo de pessoas ou em pessoas específicas, para fins políticos ». Se nos baseamos nesta única definição, podemos declarar sem dificuldade que os atos cometidos pelo Hamas correspondem efetivamente a terrorismo. Contudo, a situação dos territórios palestinianos – ocupados, colonizados, sob um proto-apartheid – muda a perspetiva, pois no direito internacional, qualquer violência que responde a uma situação de opressão pode também ser considerado como um ato de resistência legítimo. De fato, a Assembleia Geral da ONU afirmou várias vezes que os povos submetidos a uma dominação colonial, a uma ocupação estrangeira ou a regimes racistas como o apartheid, têm o direito de lutar pela sua autodeterminação. No período que atravessamos, e dado a empatia exprimida em favor das vítimas israelenses em 7 de Outubro, este lembrete de direito internacional significa logo um ostracismo mediático, e uma suspeita de « conivência » com o Hamas – para ser convencido disso, basta lembrar-se como a deputada francesa (LFI) Danièle Obono ficou vítima de imensas críticas e ataques por ter usado a expressão « movimento de resistência » a falar do Hamas, em 17 de Outubro numa estação de rádio. Contudo, dizer que o Hamas é um movimento de resistência à ocupação israelense, literalmente, será que é errado? Isto não significa que ele não tem um modo de ação terrorista, ou que a sua ideologia não é islamista. Mas no imaginário coletivo ocidental, a « resistência » (e as pessoas que a levam), é necessariamente uma coisa honrada, a saudar. A Resistência, é a resistência ao fascismo, ao obscurantismo, não esses bárbaros e esses terroristas do Hamas. Se tentamos ser sério e rigoroso, temos que conceder que os atos do 7 de Outubro relevam ao mesmo tempo de uma forma de resistência a uma ocupação e a um bloqueio antigos e violentes, de atos terroristas na sua forma, e de crimes de guerra. Todos esses qualificativos não são incompatíveis uns com os outros – entre 1956 e 1962 na Argélia, ou entre 1961 e 1975 na Angola, será que os atos do FLN e do MPLA não eram ao mesmo tempo, por alguns, terrorismo e resistência?
Por memória, um crime de guerra corresponde a « uma violação das leis da guerra, que dá lugar a uma responsabilidade penal individual para atos cometidos ou por combatantes, como o fato de matar intencionalmente civis ou prisoneiros de guerra, a tortura, a tomada de reféns, a destruição sem necessidade de bens civis, as violências sexuais em tempo de guerra, a pilhagem, ou por qualquer indivíduo que faz parte da estrutura de comando (como o fato de ordenar execuções de massa, incluindo o genocídio ou a limpeza étnica), o fato de eliminar um inimigo que rende-se, o recrutamento de crianças no exército, e o não-respeito dos conceitos jurídicos de proporcionalidade e de necessidade militar. » A mais recente definição internacional do que constitui um crime de guerra é dada no artigo 8 do Estatuto de Roma, entrado em vigor em 2002 e que define as atribuições do Tribunal Penal Internacional (TPI).
A armadilha mediática fechou-se nos movimentos opostos à ação de Israel na Palestina, ainda mais porque os outros partidos políticos alinharam-se na postura e no discurso de Benyamin Netanyahou, Primeiro ministro israelense proto-fascista apoiado pela direita e a extrema-direita do seu país; ele recuperou totalement os eventos do 7 de Outubro para fazer acreditar que a sua ofensiva militar contra Gaza é uma verdadeira cruzada civilizacional contra a barbaridade, supostamente encarnada pela população da faixa. Em 10 de Outubro passado, momento o mais caricatural desde alinhamento sobre o governo israelense, a presidente da Assembleia nacional declarou, no hemiciclo francês, em nome da representação nacional, uma « total solidariedade e [...] apoio incondicional » a Israel. De várias formas, os políticos de centro-esquerda, de direita e de extrema-direita pela Europa agiram igualmente, em solidariedade com Israel. A solidariedade legitima exprimida na altura em relação às vítimas dos ataques do Hamas não impedia em nada de permanecer crítico em relação à política agressiva e de apodrecimento conduzida por Tel-Aviv contra os Palestinianos há décadas; exprimir um « apoio incondicional » era (no mínimo) um erro político e moral, claramente. Aliás, esta solidariedade com as vítimas do ataque do Hamas não desculpava de exprimir também – imediatamente – uma condenação sem falha contre os bombardeamentos israelenses que eram anunciados contra a população de Gaza. Ainda mais porque esses não são os primeiros, longe disso. Em 2006, pelo menos 400 mortos; em 2008-2009, mais de 1 000 mortos (com a operação Chumbo Fundido); em 2012, quase 200 mortos com a operação Pilar de Defesa; em 2014, mais de 2 250 mortos com a operação Margem Protetora; e em 2021, quase 300 mortos com a operação Guardião das Muralhas: esta lista, não exausta, e que esquece o número de feridos, as destruições materiais e os mortos indiretos dos bombardeamentos, já ilustra o grau de violência que autoriza-se regularmente Israel contra a faixa de Gaza, submetida a um bloqueio terrível desde 2007 – após a tomada de controlo deste território pelo ramo armado do Hamas.
Então, porque falar de crimes de guerra e não só de terrorismo? O fazer, é adoptar uma perspetiva histórica indispensável para entender os motivos do ataque do 7 de Outubro, o grau de violência então observado, e o contexto no qual esta violência se desenvolve. Falar de crimes de guerra, é ir além da semântica adoptada pelo governo israelense (o qual procura explicitamente pintar-se em defendedor da democracia e do Ocidento), para falar do conflito, da ocupação, do bloqueio, e finalmente do impasse da situação securitária; mas igualmente, isto permite induzir uma responsabilidade penal contra os dirigentes e os ativistas do Hamas que tornaram possível ou realizaram as exacções naquele dia. Limitar-se a falar de terrorismo, é limitar-se, como o fez Benyamin Netanyahou, a comparar o Hamas com qualquer outro grupo ou nebulosa terrorista. Logo no dia 9 de Outubro, o Primeiro ministro israelense declarou que « o Hamas, é Daesh ». Contra-verdade absoluta, tanto em termos político e militar como histórico.
Por memória, o Hamas foi criado em 1987, após a primeira Intifada, como ramo político e ativista dos Irmãos muçulmanos palestinianos, para lutar contra a ocupação israelense. Apesar ser islamista, ele inscreve-se na longa história do conflito israelo-palestiniano, e não é apenas um equivalente « local » do Estado Islámico (aliás, ele nunca reclamou ser ligado a este último. É um movimento islamista, mas também nacionalista, constituido ao mesmo tempo por um ramo político e por um ramo armado, as brigadas Izz al-Din al-Qassam. Nas únicas eleições legislativas organizadas desde o falecimento de Yasser Arafat em 2004, o ramo político do Hamas até venceu a eleição, com quase 45% dos votos exprimidos, diante do Fatah de Mahmoud Abbas. Esse sucesso eleitoral explicou-se pelo descreditamento, aos olhos da população palestiniana, do Fatah, velho partido de resistência historicamente à esquerda, marcado pela corrupção, o nepotismo e as compromissões com a potência ocupante, Israel; mas também pela reputação do Hamas, visto como um movimento sincero, moral e integro. Desde o breve conflito de 2007 que o opôs ao Fatah, depois do qual ele ficou excluido da Cisjordánia mas conseguiu tomar o controlo da faixa de Gaza, o Hamas aplicou uma governância de tipo autoritário e islamista neste terrítorio, a impor a sua propaganda e a sua ideologia. Independentemente do que podemos pensar da sua ideologia, o Hamas inscreve-se portanto na história da luta contra Israel, contra o projeto sionista, e não num qualquer jihad mundial que teria como alvo os judeus pelos único fato que são judeus – porém foi o que tentou nos fazer acreditar o Primeiro ministro israelense, logo em 12 de Outubro à frente da Knesset, quando qualificou a ofensiva do Hamas de « ataque contre os judeus » (a evocar « o dia o mais horrível da história judeu desde o Holocausto »). O uso, mas mídias e na classe política ocidental, da palavra « progrom » para qualificar os atos do 7 de Outubro, ou ainda a transmissão da informação (sem verificação nenhuma) de « quaranta bebês decapitados » (o que foi a final apenas uma fakenews divulgada por Israel para servir a sua propaganda maniqueísta), esses dois exemplos, portanto, mostram bem que, ainda aqui, a retórica de Netanyahou e dos seus aliados governamentais foi perfeitamente assimilada, sem espírito crítico.
Uma perspetivação histórica do ataque do 7 de Outubro na longa história do conflito israelo-palestiniano e da ocupação israelense na Cisjordánia e em Gaza, é necessária, ainda mais porque sabemos agora que o Hamas pôde desenvolver-se pelo passado graças à convenência ou mesmo o apoiodo governo israelense (em particular com transferências financeiras). Isto, notavelmente desde o regresso de Netanyahou na liderança do executivo em 2009, pois a presença deste « espantalho » – rival da Autoridade palestiniana ainda mais – serve amplamente os interesses de Tel-Aviv. Então não, tudo não começou em 7 de Outubro, e sim, a violência do 7 de Outubro não se explica apenas por uma desumanidade intrínseca do Hamas (e ainda menos do povo de Gaza), mas também e sobretudo: 1) como resposta a uma outra violência, a da potência ocupante, Israel, e 2) como alavanca pelo Hamas para atingir um certo número de objetivos (políticos, geopolíticos, militares), sobre os quais voltaremos depois. Por memória, além do próprio bloqueio da faixa de Gaza – começado em 2007, mas na verdade mais antigo –, Israel nunca reconheceu oficialmente a existência de um Estado palestiniano (enquanto em 1993, a Autoridade palestiniana reconhece oficialmente o Estado de Israel), e no terreno, Tel-Aviv faz tudo o seu possível para tornar a realidade deste Estado impossível: a Autoridade só tem de autoridade o nome, e não decide de nada ou quase nada na Cisjodánia, a não ser a informar Israel; este mesma Cisjordánia é mordiscada por um muro de (« de segurança », diz Israel) construido a partir de 2002, e administrativamente dividida em três áreas marcadas por geografias complicadíssimas e que deixam uma margem de manobra considerável ao exército israelense (aliás, 60% do território é totalmente controlado por Israel); a colonização israelense continua nesta mesma Cisjordánia de forma completamente ilegal, e os novos assentamentos de colonos (implementados ao custo da expulsão de famílias palestinianas, é preciso o lembrar) são regularmente regularizados pelas autoridades israelenses. A essa situação vem acrescentar-se o destino trágico dos refugiados palestinianos, partidos para a maioria deles em 1948 ou em 1967 (e os seus descendentes), instalados em particular nos países vizinhos (Síria, Líbano, Egito, Jordánia...). Segundo a agência das Nações Unidas pelos Refugiados (UNRWA), trata-se de mais de seis milhões de pessoas registradas; outras fontes indicam um número mais perto de dez milhões, se contamos também os Palestinianos não registrados como refugiados ao pé da UNRWA.
É neste contexto que se inscreve o ataque do 7 de Outubro, de continuação da colonização na Cisjordánia, de bloqueio dramático sobre uma faixa de Gaza frequentemente bombardeada (em resposta a tiros de foguetes do Hamas), de segregação racial, social e espacial próximo do que a África do Sul conheceu na altura do apartheid, de repressão sistemática e sangrenta de qualquer protesto da sociedade civil palestiniana (o vimos por exemplo durante a Marcha do Retorno organizada pacificamente à fronteira entre Israel e Gaza em 2018), de impasse diplomático sobre todos os assuntos (reconhecimento de um Estado palestiniano, libertação dos milhares de prisoneiros palestinianos, direito ao regresso dos refugiados...), e de indiferença crescente da comunidade internacional sobre o caso do conflito israelo-palestiniano. Neste artigo de 2018, voltávamos amplamente sobre a política de apodrecimento alimentada voluntariamente pelo governo Netanyahou: « Estado-nação do povo judeu »: quando Israel joga a carta do apodrecimento e da separação
O que diz o debate a cerca da qualificação do ataque do 7 de Outubro?
O que podemos constatar, é que os objetivos de curto e médio prazo (supostos) do Hamas parecem ter sido, de uma certa maneira, atingidos. Primeiramente, o estrondo foi total, embora a operação foi conduzida com meios que parecem ter sido relativamente simples, e aliás, do lado de Israel, a falha dos serviços de inteligência como do exército sobre a anticipação e o cronograma do dia, parece claramente questionar. Mais ou menos 1 400 Israelenses e estrangeiros morotos em 7 de Outubro (entre os quais entre 300 et 400 soldados, policiais ou agentes de segurança israelenses): temos aqui um dos três conflitos os mais sangrentas dos 75 anos de história do Estado hebreu. É preciso lembrar-se a guerra de 1947-1948, e as suas 6 500 vítimas militares e civis israelenses, e à guerra do Kippur, e os seus 2 656 militares israelenses matados, para achar valores superiores. A título comparativo, a guerra dos Seis Dias contra o Egito, a Síria e a Jordánia, em 1967, tinha provocado o falecimento de 776 soldados israelenses, e a intervenção israelense no canal de Suez em 1956, a morte de apenas 231 militares.
Segundo « sucesso » do Hamas: o rapto de um grande número de reféns israelenses permite ao Hamas de negociar uma troca com Palestinianas e Palestinianos atualmente em prisão em Israel. Por lembrança, à data do 7 de Outubro, encontravam-se nas prisões israelenses mais ou menos 5 200 detidos palestinianos, entre os quais 170 com menos de 18 anos. Nesse número de 5 200, uns 1 310 são em detenção administrativa, ou seja, um estatuto que permite a Israel detir indefinitivamente sem inculpação nem julgamento. A propósito, podemos nos questionar sobre o uso, nas mídias mainstream, da palavra reféns quando Israelenses são raptados pelo Hamas (mesmo quando se trata de militares), e da palavra prisoneiros para falar dos Palestinianos detidos (às vezes em condições opacas e sem motivo claro e oficial) nas prisões israelenses.
Outro objetivo sucedido do Hamas: colocar-se de novo no centro da luta contra Israel, após uma década de 2010 a Autoridade palestiniana e Mahmoud Abbas tinham conseguido umas magras vitórias diplomáticas na ONU, dando uns pontos em favor do Fatah – por lembrança, em 2012 a Palestina tornou-se um « Estado não membro observador » da ONU, tal como é também o Vaticão por exemplo, pelo grande desgoto de Israel e dos Estados-Unidos. Sobretudo, o ataque do 7 de Outubro permitiu colocar de novo a questão palestiniana no centro da atualidade e das agendas diplomáticas e geopolíticas internacionais, enquanto ela tinha passado completamente em segundo plano nos últimos anos – pelo seu comportamento sobre o seu território respetivo (Cisjordánia por um lado, Gaza pelo outro) e a sua incapacidade a ultrapassar as suas disputas, as direções do Fatah e do Hamas tinham uma responsabilidade imensa nesta situação. Por memória, o contexto antes do 7 de Outubro era sobretudo caraterizado, no « conflito israelo-palestiniano », por um apodrecimento da situação no terreno, por um impasse diplomático interminável, e por uma onda de reconhecimentos do Estado de Israel pelos países árabes, habitualmente apoios barulhantes da causa palestiniana. Os Abraham Accords em 15 de Setembro de 2020 abram a marcha, a consagrar a normalização das relações dos Emirados Árabes Unidos e de Bahrein com Israel. Seguirem depois, essencialmente por oportunismo, em Outubro de 2020 o Sudão, onde a junta militar dirigida por Abdel Fattah al-Burhan queria sobretudo restabelecer relações normalizadas com os Estados-Unidos; e Marrocos, em Dezembro de 2020, em troca do reconhecimento da autoridade marroquina sobre o território saharaui. Desde então, a Arábia Saudita fez muito para normalizar a sua relação com Israel, sem no entanto assumir um reconhecimento oficial; era provavelmente uma questão de meses ou de anos. Agora, no contexto de ofensiva armada, de bombardeamentos e de massacres na faixa de Gaza, esta agenda é totalmente parada. Nesta perspetiva, o Hamas conseguiu uma vitória diplomática importante, pois ele colocou uma pedrinha no sapato de Banyamin Netanyahou, no seu caminho de reconhecimento internacional.
Contudo, consequência direta (amplamente previsível) do ataque do 7 de Outubro, a guerra brutal e total conduzida desde então por Israel na faixa de Gaza, não só tem impactos dramáticos sobre a própria população de Gaza, mas também sobre o Hamas, e em particular o seu ramo armado que é e será pesadamente impactado militarmente e em termos de efectivos – ainda mais porque as operações israelenses ainda continuam. Será que o movimento palestiniano pode sair ganhador de uma sequência na qual o governo e a administração de Benyamin Netanyahou, acusados de ter deixados se desenvolver o Hamas em gaza e de ter sido incapazes de evitar o ataque do 7 de Outubro, são agora preocupados de mostrar a sua capacidade de ação, e mesmo de conduzir o exército israelense a fazer uma demonstração de força inédita. No muito longo prazo, podemos nos questionar sobre o « sucesso » geopolítico e estratégico do Hamas após a operação do 7 de Outubro, pois a onda de ódio contra os Palestinianos que se exprime desde então nas mídias e na classe política em Israel parece ser um substrato suficientemente fértil para o governo israelense, o qual conta muitos ministros fanáticos e de extrema-direita, poder realizar uma operação de tomada de controlo (qualquer seja o preço) da totalidade da faixa de Gaza; e para ele poder fazer igual, depois ou paralelmente, na Cisjordánia, enfim, para ele poder acabar o trabalho de colonização e de expulsões em curso desde 1948. Qualquer sejam os « frutas » colhidos no plano político pelo Hamas em 7 de Outubro, será que pode-se considerar de uma forma ou de uma outra que o movimento sai vencedor desta sequência, se ela significa o início de uma enésima catástrofa humanitária para os Palestinianos, ou memso o início do fim para a própria existência do proto-Estado palestiniano e portanto para a sobrevivência da causa palestiniana?
O que nos diz o momento que representa a « contra-ofensiva » (o massacre) israelense sobre Gaza, é o dois pesos e duas medidas dos Ocidentais. De fato, este novo conflito intervem menos de dois anos após o início da invasão russa na Ucrânia – era em Fevereiro de 2022. Ora, o escarcéu a nos dizer que « Israel tem o direito de defender-se » já perdeu muito do seu valor, dado o contexto histórico no qual aconteceu o ataque do 7 de Outubro. Por memório, não tem hoje em dia um balanço oficial amplamente aceitado sobre o número de mortos e de feridos em Gaza, mas as estimações (em particular a vir do ministério da Saúde de Gaza) dão mais de 30 000 mortos palestinianos (entre os quais 13 000 crianças!) e mais de 70 000 feridos. Esta contagem não integra o sofrimento ligada à falta de material sanitária, nem as destruições materiais, nem a realidade das vidas quebradas pela guerra e as suas consequência. Se o princípio de « uma vida vale uma vida » ouvido nas mídias prevalecia realmente, a causa palestiniana já teria alertada o mundo inteiro há muito tempo, incluindo o Ocidente, o que, obviamente, não é o caso. Em nenhum momento os mortos palestinianos beneficiarão de uma focalização mediática humanizadora como foi o caso (com muito legitimidade) para as vítimas do ataque do 7 de Outubro.
A repressão israelense sobre Gaza continua, e a ouvrir membros do governo e do estado-maior militar, o risco – no mínimo – de limpeza étnica e de deslocamentos de população é real. A comparação entre a Ucrânia invadida e a Palestina invadida, e entre Vladimir Putin e Benyamin Netanyahou é tentadora, e alguns a fazem, apesar da propaganda desenvolvidas há semanas para nos convencer que, embora a situação colonial persiste há décadas em Israel e na Palestina, a vítima é o Estado hebreu, e os Palestinianos são apenas bárbaros sanguinários. O Ocidente persiste a não denunciar o massacre em curso em Gaza (e o seu corolário silencioso: a continuação da colonização na Cisjordánia), e por isso, Europeus e Norte-Americanos mostram ao mundo o que muitos já sabiam, ou seja, que os seus lindos valores de respeito dos direitos humanos, de liberdade e de democracia, de paz e de diálogo, só se aplicam nos casos que lhes arrajam. Isto dos critérios duplos já era óbvio quando, em 2022, os Europeus acolheram mais ou menos calorosamente os refugiados ucranianos que fugiam a guerra, enquanto seis ou sete anos mais cedo, os refugiados sírios chegados na Europa tinham sido tratados como leprosos. O que nos diz a sequência pós-7 de Outubro, é simplesmente que os Europeus e os Norte-Americanos se sentem mais próximos dos Israelenses, porque são Ocidentais parecidos com eles; e que o olhar que eles levam sobre as vítimas de conflitos pelo mundo é ditado, primeiramente e antes de tudo, por um racismo óbvio que desumaniza certos povos e põe outros ao nosso nível de humanidade e de dignidade.
Retomamos a definição de crime de guerra que mencionamos mais cedo: evocamos « uma violação das leis da guerra, que dá lugar a uma responsabilidade penal individual para atos cometidos [...] por qualquer indivíduo que faz parte da estrutura de comando, como o fato de ordenar execuções de massa, incluindo o genocídio ou a limpeza étnica [...] e o não-respeito dos conceitos jurídicos de proporcionalidade e de necessidade militar. » Parece evidente que as decisões e os atos do estado-maior militar e do doverno israelenses já relevam desta definição. Por memória, um mandato de detenção do TPI foi emetido, em 17 de Março de 2023, contra Vladimir Putin, em relação com as acusações de crimes de guerra, em particular a « deportação ilegal de população (crianças) » e a « transferência ilegal de população (crianças) » desde zonas ocupadas na Ucrânia para a Rússia. Desde então, aparece claro que o presidente russo é persona non grata em todos os países ocidentais. Veremos, portanto, qual será a reação desses mesmos países ocidentais o dia em que a TPI emitirá um mandato de detenção contra Benyamin Netanyahou e os seus próximos, para os julgar para os seus crimes no conflito atual; tem muito risco de constatar então uma nova ilustração do dois pesos e duas medidas que decrivimos antes. Por enquanto, desejamos muito corajem às cidadãs e aos cidadãos de Israel e de Palestina desejosos de chegar a uma paz duradoura, e esperamos para o povo de Gaza que esta sequência dramática interrumpe-se o mais cedo possível – pois cada dia que passa traz com ele, neste território, a sua parcela de mortos, de feridos, de dramas e de destruições apocalípticas.
Protesto em Roma (Itália) em 28 de Outubro de 2023 de 20 000 pessoas (segunda as autoridades) vindas denunciar a ofensiva e os bombardeamentos israelenses sobre Gaza, e mais globalmente contra a situação de apartheid e de opressão vivida pelos Palestinianos em Gaza e na Cisjordánia. No mesmo dia, dezenas de milhares de pessoas mobilizavam-se da mesma forma em vários países do mundo. (Crédit photo © Ophélie Hémonin, 2009)
/image%2F0495588%2F20210905%2Fob_95df09_oadl.jpg)
/image%2F6728977%2F20260826%2Fob_ea1622_image-0521679-20251117-ob-5d60c9-51470.jpg)
/image%2F6728977%2F20260826%2Fob_6bb7f1_image-0521679-20251117-ob-7d944d-51610.jpg)
/image%2F6728977%2F20260826%2Fob_5d5631_image-0521679-20251117-ob-555f84-51510.jpg)
/image%2F6728977%2F20260826%2Fob_bfa883_image-0521679-20251117-ob-757c95-51518.jpg)
/image%2F6728977%2F20260826%2Fob_80a5b5_image-0521679-20251117-ob-85582e-51472.jpg)
/image%2F6728977%2F20260826%2Fob_654505_image-0521679-20251117-ob-677589-51501.jpg)